Antropologia bíblica

 

            Com o presente trabalho, pretende-se analisar a compreensão de ser humano, tal qual se encontra na Bíblia, nas suas diversas fases, principalmente na literatura do Pentateuco, na literatura sapiencial, nas Novelas Bíblicas, no Novo Testamento, nos evangelhos, na literatura paulina, nos Atos dos Aóstolos e no Apocalipse. Não podendo tratar do assunto de forma ampla, tomar-se-á em cada literatura alguns destaques.

 

 

            I – O ser humano no Pentateuco

 

            Por ser amplo demais uma visão no Pentateuco, aqui se dará preferência aos livros do Gênesis e do Êxodo, com alguns enfoques no livro do Levítico.

 

1.      O ser humano no Gênesis

 

O livro do Gênesis não é um livro histórico e menos ainda, científico. Por isto mesmo, antes de olharmos sua compreensão de ser humano, precisamos dividi-lo em suas partes. É sabido que o Gênesis se divide em duas partes: A parte mais antiga está em Gn 12-50 (patriarcas) e a parte mais nova está em Gn 1-11.

 

1.1  – O ser humano em Gn 1-11

 

Logo de saída deve-se dizer que Gn 1-11 não é literatura histórica. Nada do que aqui se encontra deve ser visto sob o olhar da história ou ciência, mas antes, sob o olhar da fé de Israel. Alguém que tem fé em Javé, Deus da vida, necessariamente vê o ser humano diferente do comum dos mortais.

 

1.1.1       – A compreensão do ser humano em Gn 1,1-2,4a[1]

 

a) Situação: estamos diante de um poema litúrgico elaborado por um grupo de sacerdotes nos tempos do Exílio da Babilônia[2]. Neste momento histórico, a situação dos exilados está muito precária. A escravidão e o exílio desumanizam a vida de quem está distante de sua pátria. Este ambiente de dor, de desolação recebe um poema litúrgico que era recitado nas orações. Mostra, por um lado o rosto de Deus e, por outro lado, o rosto humano.

 

b) O ser humano: Deus é o criador de tudo, ou seja, é a origem de tudo. Ele fixa os seres, ele organiza a ordem natural das coisas. Nesta sua ordenação natural se mostra que tudo é criatura de Deus, inclusive o ser humano. Deus faz bem as coisas e as ordena de forma harmoniosa. Tudo obedece a uma ordem sabiamente pré-estabelecida.

Dentro desta ordem pode-se também ver qual a compreensão de ser humano. O homem e a mulher, que na Babilônia eram tratados como animais de carga, sem direito ao repouso, nem mesmo à liberdade, são vistos como a obra máxima da criação, pois estão no topo, ou seja, foram criados depois de todas as obras. Eles são imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27)[3]. Esta imagem e semelhança não deve ser vista de forma física, mas antes, em dignidade, ou seja, estamos diante de uma visão de ser humano diversa daquela que se tem no mundo escravocrata. O Deus da Bíblia não comporta a escravidão, pois Ele quer o Homem e a Mulher soberanos sobre toda criação. Ele os abençoa (Gn 1,28). Até Deus descansa (Gn 2,1-4a), ou seja, o relato mostra que os escravos da Babilônia precisam de um dia de descanso para cultivar sua fé e alimentar a esperança de sua libertação.

 

c) Questões:

1)     Lendo Gn 1,1-2,4a, como você interpreta o ser humano?

2)     Na visão bíblica, o que significa imagem e semelhança?

3)     Interprete Gn 1,27

4)     O que quer dizer que o homem e a mulher devem dominar sobre as demais obras de Deus (Gn 1,26.28-29)?

5)     Qual o sentido do descanso (Gn 2,1-4a)?

 

 

1.1.2 – O ser humano em Gn 2,4b-3,24

 

a) Situação: Este texto é mais antigo de que Gn 1. Estamos na época da monarquia, por volta do séc. 9 ou 8 a.C.[4]. Pode-se ver no cap. 2 um retrato falado do sistema tribal e no cap. 3 um retrato falado do sistema monárquico. Ou seja, quando, em Israel havia o sistema tribal, a vida era possível. Havia harmonia e paz. O malvado sistema monárquico (cf.1Sm 8,10ss; 1Rs 10,14ss; 11,1-9) transformou a vida do povo num inferno.

 

b) O ser humano

O segundo relato da criação também traz uma visão positiva do ser humano. Ele é o centro da criação, ele se confunde com a terra[5], vive em harmonia com a natureza (Gn 2,15), com os animais (Gn 2,18ss) em com a mulher (Gn 2,24)[6]. Porém, a ambição desmesurada de uma visão diferente daquela de Deus, lançou o homem e a mulher na miséria (Gn 3,1ss)[7]. Sem especulações outras, é fácil perceber que, a visão humana subjacente ao texto, embora patriarcal, tem o ser humano na mais alta consideração. Ele vem da terra e a ela volta (Gn 3,19), mas antes desta volta, seu lugar é no jardim. Deus queria o ser humano vivendo em harmonia, cultivando e cuidando da natureza (Gn 2,15). Ao mesmo tempo Deus queria o ser humano em sintonia com o projeto de Deus. Para tanto, o homem e a mulher tinham certos limites (Gn 2,17). Eles deveriam preservar o bem estar que Deus lhes havia doado.

Gn 2-3 é reflexo da passagem do sistema tribal para o monárquico. No sistema tribal a vida era possível para todos. No sistema monárquico a vida se tornou um mar de sofrimentos. Segundo Gn 2-3, o homem e a mulher foram responsáveis por este novo sistema gerador de sofrimentos. Assim sendo, no texto  percebe-se, por um lado, a compreensão bíblica do ser humano (vida em harmonia) e por outro lado, a vida sofrida, resultante de um projeto político devastador que contraria a ordem original das coisas.

 

            c) Questões

1)     Como entender o ser humano a partir de Gn 2,4b-25?

2)     Como entender o ser humano a partir de Gn 3,1-24?

3)     É possível ser um ser humano realizado longe do projeto de Deus?

4)     Quais as causas do sofrimento?

5)     Na visão de Gn 3, a mulher deve ser submissa ao marido?

 

1.1.3       – O ser humano em Gn 4

 

a) Situação: estamos no mundo pastoril do século 12 e 11 a.C. O conflito se dá entre os pastores e os agricultores que moram na cidade e representam a parte forte de então. Os pastores são seminômades e, portanto, frágeis[8] são as vitimas que, muitas vezes, são massacrados e assassinados pelos agricultores prepotentes.

 

b) O ser humano:

O tema de Caim e Abel nos apresentam o ser humano em sua situação de contingência, O agricultor, forte e preopotente tira a vida do pastor seminômade, fraco. Javé reprova esta atitude assassina e violenta do agricultor[9] e se põe ao lado do mais fraco. Javé aceita o sacrifício de Abel, mas não o de Caim (Gn 4,4-5). O irmão assassino foge. Ele sente o peso de seu ato, mas Deus mesmo assim não o abandona. Ele tem sua chance. Torna-se migrante (seminômade?). Deus o protege.

 Na pedagogia bíblica o ser humano sempre é valorizado por Deus, principalmente quando é vítima da truculência dos poderosos. Deus se coloca ao lado dos fracos. Quando nenhuma força pode amparar o indigente, o injustiçado, lá estará Deus, como braço forte a amparar aqueles que não tem outra possibilidade.

 

c) Questões

1)     Por que Deus aceita o sacrifício de Abel enão o de Caim?

2)     Quais os dois mundos contrapostos no relato de Gn 4?

3)     O que deveria acontecer a Caim?

4)     Qual a antropologia subjacente ao texto?

5)     Qual a imagem de Deus?

 

 

1.1.4 – A antropologia do relato do dilúvio Gn 6-9

 

a) Situação: o relato do dilúvio não reflete o ambiente da Palestina, mas antes, o da Mesopotâmia[10]. A cosmovisão de Gn 6-9 é semelhante àquela refletida em Gn 1. O contexto é também o do Exílio[11], ou seja, lá no Exílio se usa lendas de enchentes (Gilgamexe) para ameaçar o povo e mantê-lo submisso ao rei. A rebeldia do povo ao rei provocaria a vingança dos deuses que, por conseqüência, exterminariam o povo com enchentes avassaladoras. Alguém arranca a lenda da oficialidade e lhe dá uma nova conotação. O que antes servia para legitimar a política de dominação, agora é contado a partir dos escravos e promete nunca mais ter dilúvio. Trata-se da libertação de uma lenda perversa. Neste trabalho encontram-se muitas mãos, ou camadas literárias.

 

b) A visão de ser humano: o texto de Gn 6-9, apesar de trazer uma visão de um Deus que se vinga, traz também  uma promessa de novas possibilidades. Deus jamais irá destruir o ser humano e as sementes. O povo pode estar tranqüilo, mesmo que ainda tenha pecado, o dilúvio já não é mais nenhuma ameaça. Esta promessa tem como ponto de partida o desmascaramento do medo. Apesar de pecador, o povo deve trabalhar tranqüilo. A saída proposta é a vida clânica (Gn 9). Lá também haverá o pecado (9,22ss), mas a o próprio clã se encarregará de resolver suas mazelas.

 

c) Questões

1)     Por que se insiste na promessa de nunca mais ter dilúvio?

2)     Qual a concepção de ser humano em Gn 6-9?

3)     Qual a concepção de Deus?

4)     Qual a cosmovisão?

5)     O que tem de histórico neste relato?

 

 

1.1.4       – A visão do fraco em Gn 11,1-9

 

a) Situação: trata-se de uma antiga parábola de agricultores contra a cidade, ou seja, os agricultores percebem que as cidades sempre mais querem dominar a roça. As cidades são uma ameaça ao povo camponês. Lá está tecnologia, a força militar[12]. Mais tarde este relato é aplicado à Babilônia[13] que ameaçava a Judá. Babilônia, na planície, através de suas cidades e de seu poderio militar, deixa o povo sem saída. Quer unificar tudo, a cultura, a língua para assim poder dominar o povo. Porém, Deus desce para ver a ilimitada arrogância dos citadinos e se posiciona ao lado dos fracos. Ele confunde a língua e desta forma impossibilita a dominação. O povo ainda tem uma esperança em Javé, que permite a dispersão.

 

b) A visão do ser humano: como em todos os relatos de Gn 1-11, quando já não existe mais nenhuma possibilidade para os fracos diante da arrogância dos poderosos, surge a mão poderosa de Javé. Javé é o Deus dos pequenos (cf. Ex 3,7ss), ele sempre é a saída dos fracos.

 

c) Questões

1)     Qual a imagem de Deus neste relato?

2)     Qual a imagem de ser humano?

3)     O que significa a dispersão do povo?

4)     Qual é o conflito?

5)     As novas técnicas citadinas são sinônimo de que?

 

 

1.2 – O ser humano nos relatos dos patriarcas - Gn 12-50

 

            Aqui não se pretende analisar Gn 12-50 do ponto de vista da exegese. Apenas se intenta perceber a antropologia subjacente, ou melhor, pretende-se perceber como nestes relatos se encara o ser humano.

 

            1.2.1 – Ciclo de Abraão e Isaac – Gn 12-25

            a) Situação: Abrão, bem como os demais patriarcas, certamente refletem bem mais as tradições de um povo pré-israelita e pre-javista, do que propriamente as histórias de patriarcas[14]. Sobre estas figuras eram acrescentadas tradições que na realidade eram posteriores.

 

"Um dos agrupamentos mais extensos muito evidentes é o ajuntamento das tradições em volta de antepassados proeminentes. Abraão e Jacó constituíam, cada um deles, imãs para o crescimento de ciclos e tradições. Em comparação, Isaac é figura passiva, que propende a ficar submersa nas tradições de Abraão, e José, embora tratado cuidadosamente na novela, na realidade é subordinado tematicamente ao ciclo jacobita de tradições”[15]

 

Nestes relatos, precisamos ver elementos de povos pré-Israel, bem como de atribuições a eles feitas, em períodos tardios, quando da elaboração e transmissão das tradições e da redação dos textos. É bom lembrar que na elaboração de Gn 12-50 concorreram diversas fontes[16], como seja: o javista, o eloísta, o javista e o deuteronomista.

Abraão é o homem da ruptura[17]. Ele recebe o chamado para sair de sua terra[18], isto é, de seu mundo (Gn 12ss). Ele inicia uma nova jornada. Entre as muitas sagas que se relatam sobre sua pessoa, pode-se destacar a promessa de descendência, da terra e a Aliança feita com Javé (Gn 15). Poder-se-ia dizer, que com Abraão começa a revelação Bíblica, ainda que, de fato isto seja melhor caracterizado pela experiência do Êxodo.

 

b) Antropologia: no ciclo de Abraão percebemos a visão do homem religioso que ouve a voz de Deus e por ele se põe a caminho, ou seja, o homem que, a partir de sua fé, muda completamente de vida. Ainda se pode destacar uma antropologia retribucionista. Abraão receberá terras, descendência e vida longa em troca da Aliança. O homem reto é abençoado por Deus (Gn 17,1ss).

Nas sagas de Abraão, o homem de rupturas[19], pode-se destacar outra saga importante: o sacrifício de Isaac (Gn 22). Este relato etiológico ilustra a passagem do período dos sacrifícios humanos para um período em que se substitui os sacrifícios humanos por sacrifícios de animais. O ser humano já começa a ser visto de outra forma. Javé não aceita sacrifícios humanos. O ser humano tem uma dignidade inviolável.

 

Questões

1)     Como entender a pessoa humana nas sagas de Abraão?

2)     Como entender a fé de Abraão?

3)     Que sentido tem uma fé que se realiza apenas nesta vida?

 

 

1.2.2 – O ciclo de Jacó Gn 26-36

a) Situação: Tudo, no ciclo dos patriarcas se afunila em direção a Jacó e a Judá que é o ancestral de Davi e, por assim dizer, do povo de Judá. Deus intervém a favor deste povo, pois ele (Jacó) suplantou seu irmão Esaú, segurando-o pelo pé (Gn 25,19ss)[20]. Jacó passa seu irmão para trás, roubando-lhe a primogenitura (Gn 27,1ss). Trata-se de um relato etiológico para ilustrar a eleição de Israel diante de seus irmãos. Além da primazia de Jacó sobre seu irmão, o relato aponta também para o fato de os filhos de Jacó serem os patriarcas das 12 tribos (Gn 29,31-30,24).

 

b) Antropologia: no ciclo de Jacó se destaca claramente a eleição do povo de Israel sobre os outros povos. Jacó suplanta Esaú, o que demonstra que o povo de Israel (Jacó) teve a eleição. Esta antropologia, mais tarde, serviu para a neurótica visão racial de Israel, principalmente dos fariseus e saduceus.

 

c) Questões

1)     Como entender a eleição de Israel?

2)     Como entender a preferência de Javé por Israel?

3)     Israel teve sua origem nas doze tribos?

 

1.3 – O ser humano, no Êxodo

 

Êxodo (evx o`do,j  = Caminho para fora) principal experiência fundante do povo hebreu. Fato acontecido aproximadamente no ano de 1250 a.C. Acontecimento histórico de alguns escravos do Egito que conseguiram transpor um sistema político, econômico, social e ideológico (religioso), buscando sua libertação, contando para isto a proteção de um Deus até então desconhecido: hwhy "JHWH'. Este momento histórico e este processo penoso de libertação impregnou de tal forma o povo hebreu, que mesmo os demais, que não passaram pelo Egito, assimilaram tal Experiência e o Êxodo se tornou experiência fundante para todos. A partir da espiritualidade do Êxodo formou-se o povo hebreu, sua religião, sua cultura e sua organização política, social, econômica e ideológica. Esta história foi contada e recontada entre os membros daquele povo por séculos. A redação do livro do Êxodo aconteceu no Exílio da Babilônia ±550 a.C. Até então, o Êxodo era tradição oral.

O livro do Êxodo faz parte do Pentateuco. Antigamente era conhecido como 2º livro de Moisés, i. é, segundo livro do Pentateuco, que na sua totalidade era visto como obra de Moisés. Não existe, no entanto, unidade literária entre estes cinco livros e, menos ainda, poderiam ser de Moisés, pois o Dt, último livro da coleção, descreve a morte do próprio Moisés (Dt 34). O livro do Êxodo, como hoje se apresenta, também não é a história original do fato, supostamente acontecido há 1250 a.C., pois na ocasião a escrita é quase totalmente desconhecida e, além do mais, o Êxodo foi por mais de sete séculos, tradição oral. Sua redação, segundo muitos autores, foi feita durante o Exílio da Babilônia (589-539 a.C.).

Von Rad (1901-1977) e Noth elaboraram a seguinte teoria para explicar, não apenas a origem do Êxodo, mas de todo Pentateuco:  - Eles vêem o Pt como um gênero literário com seu Sitz im Leben. Segundo Von Rad, o núcleo do Pt está nos Credos Históricos (Dt 26,5b-9; Dt 6,20-24 e Js 24,2b-13). Nestes credos destacam-se o êxodo e a terra. Neles os patriarcas apenas são mencionados. Gn 1-1 1 e o Sinai (Ex 19ss) estão ausentes destes Credos.

 

"É a partir desses credos cultuais e da tradição do Sinai. enraizada na liturgia da festa das Tendas, que o Javista compôs a trama narrativa do Hexateuco"[21].

 

1.3.1 - Formação do livro

O atual livro do Êxodo, é na realidade uma colcha de retalhos, ou seja, diversas tradições antigas entraram para formar o todo[22]. A seguir será apresentada uma tabela parcial, de acordo com N. Gottwald[23], que ilustra a concorrência das diversas tradições[24].

a) Tradição Javista

- Preparação de Moisés Ex 1,8-12.22; 2,1-23a; 3,2-4a.5.7-8.16.22; 4,1-12.19- 20a. 22-23; 4,24-3 1.

- As pragas 5,1-6,1; 7,14-18.20b-21a.23-24.25-8,4.8-1512,36 - A saída e jornada no deserto 12,37-17,7

b) Tradição Eloísta

- Preparação de Moisés Ex 1, 1 5-21; 3,1.4b.6.9-1 5; 4,15-18.20b-21

- Êxodo e viagem pelo deserto 13,17-19; 15,20-2 1; 17,8-16; 18, 1-27

c) Tradição composta de JE

-Preparação para a Aliança Ex 19,2b- 1 5

- Teofania e Legislação 19,16-25; 20,1-23,23 -@ 24,1-2.9-1 1

- Aliança e renovação da aliança 24,3 -8.12-1 5; 3 2,1-3 5; 3 3,1-23; 3 41-28

d) Tradição Sacerdotal (P – Priester em alemão)

-         Preparação de Moisés Ex 1, 1 1-7.13-14; 2,23b~24; 6,2-7,13; 8,5-7; 16-19; 9,8-12; 1 1,9- 1 0.

 

1.3.2 - A estrutura do livro

O livro do Êxodo, na sua atual configuração, conta a fundação da nação de Israel como um reino teocrático, ou reino de Deus na terra[25]. Torna-se, assim, o centro de todo o Pentateuco. Ou seja, os demais livros têm o Êxodo como ponto de partida.

A - Preparação do Êxodo I- 12 –

                 - A opressão 1

- A vocação de Moisés 2-6

- As pragas 7-11

B - O Êxodo 12-18

- A fuga 12-14

- O Cântico de Miriam 15

- A migração até o Sinai 16-1 8

C - A Aliança do Sinai 19-24

D - Descrição da Arca e do Tabernáculo, morada de Deus 25-40

 

1.3.3 - Conteúdo

O livro do Êxodo revela a origem do povo de Israel, ou seja, um bando de escravos, de sem terras, de pastores, todos juntos, vítimas da opressão do faraó do Egito, escapam do domínio ideológico do rei e, aos poucos, sob a inspiração de Javé, um Deus diferente, conseguem se organizar e buscar sua libertação.

Assim, sendo, o texto atual do livro de Êxodo tem sua base nos Credos Históricos (Dt 26,5b-9; Dt 6,20-24 e Js 24,2b-13) que relatam a experiência primitiva deste povo. No entanto, como foi visto, por se tratar de uma velha tradição contada e recontada, foi enriquecida com detalhes que muitas vezes refletem o período da origem, outras vezes da formação e por fim, da redação. Pode-se, assim falar em Sujeito 1 (o que de fato aconteceu), Sujeito 2 (o longo percurso da tradição oral) e o Sujeito 3 (o ambiente da redação final, isto é, o exílio da Babilônia). Logo: No exílio da Babilônia, os deportados sofridos, tristes, sem esperança, recontam suas antigas tradições, as fixam por escrito, no intuito de reanimar seus desesperançados em terras estrangeiras (Sl 137). O objetivo do livro é não deixar que os babilônios imponham sua cultura e seu domínio para sempre.

- Os exilados, em meio ao seu sofrimento, devem lembrar, que no passado, seus antepassados viveram situação semelhante (Ex 1).

-         Javé, em meio à tanta opressão, como agora no Exílio, suscitou um líder (Ex 2-4).

- Javé acompanha a organização do povo e luta a favor dele (Ex 5-12),

-         Com Javé e com a organização do povo, a libertação é possível (Ex 12-14).

- Uma vez livre, não se deve repetir o Egito (Ex 16ss).

- Para não recair na escravidão deve-se viver a Aliança com Javé (Ex 19-24).

 

Assim, o Êxodo, além de contar a velhas tradições, quer incutir no povo a certeza de que Deus não abandona seu povo. Se o povo caiu na escravidão, isto é culpa da infidelidade. Os falsos deuses (Ex 20,3ss; 32,lss) são a causa da escravidão.

 

1.3.4 - Questões complementares

Certamente não se pode interpretar o livro do Êxodo como um relato puramente histórico. Ela é a junção de antigas tradições. Algo nele certamente é histórico, porém, hoje os biblistas julgam que não foi todo Israel que viveu a experiência do Êxodo. Apenas um pequeno grupo teria vivido esta realidade. A teoria mais comum é que diversos grupos concorreram[26].

a) Os hapirus. Em Canaã, a partir do séc. 13 a.C. encontra-se o fenômeno das Cidades-estado. Ou seja, na faixa litorânea e nas planícies existem diversas cidades-estado com seu rei, com seu exército e com sua leva de campesinos. Os reis eram vassalos do faraó do Egito e os campesinos eram escravos dos reis. Muitas vezes estes campesinos, cansados da escravidão fugiam para as montanhas, que naquele tempo ainda eram inóspitas. Inicialmente era difícil sobreviver nas montanhas. Só salteadores e mercenários sobreviviam. Mais tarde, com o surgimento de novas técnicas agrícolas, os camponeses conseguem sobreviver. Este é o fenômeno dos hapirus (assaltantes, mercenários[27], etc.). Da palavra hapiru certamente deriva a palavra hoje conhecida como hebreu.

b) Grupos abrâmicos. São grupos de pastores seminômades que migram com suas famílias e seus rebanhos de ovelhas e cabritos atrás de pastagens. Formam pequenas tribos que não conhecem fronteiras. Também não conhecem propriedade de terras. Invadem as roças dos camponeses com seus rebanhos, resultando daí conflitos de morte (Ex.: o relato Caim e Abel - Gn 4). Estes pequenos grupos, vindos do norte entram em Canaã e se confrontam com os camponeses (ou citadinos) das cidades-estado, sendo por eles rechaçados[28]. Desta forma vivem nas estepes e nas faixas intermediárias entre as terras planas e as montanhas. São premidos. Por um lado estão os camponeses que os repelem, por outro lado estão as montanhas inóspitas, onde também não podem penetrar com seus rebanhos. Com o passar do tempo, sofrendo a pressão dos camponeses, alguns destes seminômades sobem às montanhas e se mesclam com os hapirus.

e) Grupo mosaico. Este é o grupo (talvez relativamente pequeno) que fez a experiência do Êxodo, i.é, da libertação da escravidão. Provavelmente eram também pastores seminômades que migraram para o Egito e lá se tornaram escravos. No Egito não lhes resta espaço, pois são controlados política e ideologicamente. Os deuses são a melhor arma que os faraós têm para manter o povo dominado. Este pequeno contingente de escravos, talvez em contato com os Madianitas (Ex 3, I ss), descobre Javé (Ex 3,7ss), um Deus não conhecido do rei. Com ele conseguem transpor o controle de faraó e se organizam (Ex 4ss) sob a liderança de Moisés e iniciam o processo de libertação. Uma vez fora do Egito, peregrinam pelo deserto (40 anos) até chegar à Terra Prometida (Canaã - Israel). Lá chegando encontram os hapirus e o grupo abrâmico, formando com eles uma unidade. Houve, assim mistura de culturas e de religião, sendo que a experiência do grupo mosaico prevaleceu, por se tratar da experiência mais forte e porque também os demais sofriam as agruras oriundas do Egito. Logo, a experiência do Êxodo foi assimilada pelos demais como sendo sua. Ela ganhou corpo e passou a ser a experiência fundante de toda Bíblia[29].

d) Grupo sinaítico: Quando o grupo mosaico saiu do Egito migrou pelo deserto e chegou ao Sinai (Ex 19). Lá se fundiu com outro grupo, provavelmente de pastores que estava sendo premido pelo Egito, pois na região havia cobre, mineral cobiçado pelo faraó. Estes pastores que estão em retirada devido às pressões do Egito, são pessoas cuja religião se manifesta na natureza: raios, relâmpagos, nuvens, etc. (Ex 19). Impregnam o grupo mosaico com suas teofanias.

Todos estes grupos e, talvez mais outros, entraram em Canaã e se mesclaram. Cada grupo contribuiu com alguns elementos culturais e também religiosos, sendo que a experiência do grupo mosaico prevaleceu sobre as demais. Assim se formou Israel. Da fusão de todos, surge um povo que destronou os reis das cidades-estado (Js) e, aos poucos, foi ocupando as terras de Israel, organizando-se em uma sociedade tribal.

 

1.4 – E ser humano no Deuteronômio

 

Deuteronômio. (Dêutero – 2ª ou cópia; Nomos - Lei. Logo, 2ª Lei ou Cópia da Lei). Trata-se de uma segunda versão do livro do Êxodo, ou melhor, da epopéia de Moisés. Segundo certas teorias, a origem deste livro estaria no Reino do Norte e teria sido escrito por sacerdotes e levitas, pois estes eram muito legalistas e estas categorias são muito citadas[30]. Talvez o centro do livro seria aquele que fora encontrado no templo durante a Reforma de Josias (2Rs 22,3-30). Este livro reflete as idéias do rei Ezequias (2Rs 18,1-20,21), abafadas por Manassés (2Rs 21,1- 18) e retomadas por Josias (2Rs 22,1-23,30).

 

"Este documento apresenta Moisés falando ao povo, pouco antes da tomada da posse da terra. Na realidade, o povo a que falava não é aquele que viveu no tempo de Moisés, em tomo do ano 1200 antes de Cristo, mas o que andava nas ruas de Jerusalém e no interior da Palestina, povo dado à superstição, no tempo de Manassés e Josias. Moisés apresenta a lei de maneira muito direta e pessoal, em forma de discurso"[31].

 

Este livro tomou-se a base da reforma de Josias num momento de muita crise. O livro do Deuteronômio inspirou toda uma escola teológica que se expressa em Js, Jz, 1-28m e 1-2Rs. Esta obra é chamada de Obra Historiográfica Deuteronomista (OHD).

 

Em 2Rs 22-23 se fala de que, durante a reforma de Josias, o sacerdote Helcias encontrou um livro sobre a Lei (Deuteronômio), no templo (622 a.C.). Este livro se tornou uma releitura da Lei. Provavelmente vindo do Norte, trazido por migrantes que vieram ao sul quando a Assíria invade a Samaria (722 a.C.). Desta forma, o livro mereceu lugar na Reforma de Josias, tornando-se o mentor ideológico deste rei. Mais tarde, no Exílio este livro formou escola, isto é, inspirou uma série de livros: Josué, Juizes, 1 e 2Sm, 1 e 2Rs. Esta coleção chama-se OHD.

 

1.4.1 – Formação

O Dt é fruto de um longo processo que partiu de cerimônias de renovação da Aliança e da recitação da Lei[32]. Isto deve ter ocorrido quando em Israel ainda havia muitos pequenos templos e mesmo em assembléias populares. "A estrutura dos materiais no Dt é a estrutura de cerimônia de conclusão da afiança ou de sua renovação[33]. Assim, o que são tradições espontâneas, tornam-se o embrião de um novo livro e mais tarde, de uma escola teológica. Esta tradição tem uma séria preocupação: acabar com os abusos da idolatria, praticados nos muitos locais de culto. Daí que se ocupa em centralizar o culto num único lugar. Mais tarde, com a destruição do Reino do Norte, alguns fugitivos levam estas tradições para o sul e lá a desenvolveram.

 

1.4.2 - Estrutura

Dt obedece à seguinte estrutura:

A - Acontecimentos do Sinai 1 - 11

B - Exposição das Leis 12,1-26,15

C - Estabelecimento da Aliança 26,16-19

D - Bênçãos e maldições 27-28

E - Ajuste para ligar o livro a Josué 29-34

 

1.4.3 - Conteúdo

Os princípios básicos do Deuteronômio e da OHD são:

1 - Deus é fiel à promessa (Dt 9,1-6- 26,16-19).

2 –Observar Aliança traz paz, descumprir traz castigo (Dt 7; 11,26-32; 28);

3 - Só Deus merece adoração (Dt 4,15; 6,4-19);

4 - Centralização do culto (Dt 12,1-14);

5 - Os profetas falam em nome de Deus e devem ser obedecidos (Dt 18).

 

Alguns autores resumem o Dt assim:

1 - Há um só Deus (Dt 6,4);

2 - Um só local de culto (Dt 12,5.13) = Jerusalém (antes Silo e Siquém).

3 - Um só povo (Dt 12,19; 13,7-19).

3.1 - Não haja pobres em teu meio (Dt 15,4).

 

Um só Deus, um só local de culto, um só povo: Aos reis são impostas sérias restrições pois foram eles os que mais quebraram este princípio (Dt 17,14-20 - comparar este texto com 1Sm 8,10ss; 1Rs 10, 14ss; 1Rs 11, 1ss), A figura do rei é limitada, mas destaca-se a figura do profeta (Dt 18,9-22). Ora, o profeta é justamente o contrapeso do rei e dos sacerdotes.

Com base em Dt Josias fez as reformas de seu tempo. Centralizou o culto em Jerusalém, e a Páscoa, antes celebrada nas famílias, agora só pode ser celebrada no templo. Proibiu o culto dos astros, as adivinhações, a prostituição do culto e a imolação das crianças (2Rs 23,4-14.21- 24). Tudo isto encontra eco no Dt 12; 16,21s; 17,2ss; 23,18ss. A centralização do culto feita por Josias encontra eco em Dt 14,22ss.

Os levitas e sacerdotes têm papel preponderante no Dt, daí que se supõe que a centralização, bem como a redação lhes é devida. Como foi dito, o Dt tem origem nas cerimônias de renovação da aliança e nas recitações da Lei, fica evidente que nestas cerimônias os sacerdotes e levitas eram os líderes.

 

 

II – O Ser humano na Literatura Sapiencial

 

0 - Introdução

 

            É difícil definir o fenômeno da tradição sapiencial[34]. No entanto, há certo consenso de que no Antigo Testamento existem obras que compõem a literatura sapiencial: Pr, Jó, Ecle, Eclo, Sb, Sl, Ct, Lm, Rt, e Tb. Nem todos os autores vêem Lm, Rt e Tb como sapienciais, mas antes, como profético (Lm) enquanto Rt e Tb muitas vezes são classificados como novelas bíblicas. Além do mais, na literatura deuteronomista, na profética e mesmo na história, há vestígios da tradição sapiencial.

            Segundo Von Rad, a Sabedoria tem dois postulados:

            - Conhecimento prático das leis da vida e do universo, tanto da criação como da malha social.

-         Conhecimento da razão universal que interpela o ser humano – vinculado ao mistério.

O primeiro vem da reflexão meramente humana. O segundo vem do Criador. É no conhecimento desta Sabedoria que o ser humano encontra a felicidade[35].

Para Whybray a Sabedoria do Antigo Testamento é um mundo de idéias frente à vida[36]. Porém, Whybray não concorda com Von Rad no sentido de que houvesse uma classe profissional que desenvolvesse a Sabedoria. Antes, esta se formava na vida do povo e alguns sábios, escribas a ordenavam em livros. Pensava-se que a Sabedoria na Bíblia fosse fruto das elites e que esta ajudava a manter o Estado Salomônico.

 

“Diziam que a Sabedoria nasceu na cidade. Ela é a inteligência de uma classe dominante, ou dos funcionários da corte, sobre os camponeses. A Sabedoria seria, então, a justificativa e a direção do Estado sobre o povo dominado”[37].

 

            Supostamente a Sabedoria teria recebido influência do Egito e de outros países para manter a ordem estabelecida. Hoje mudou-se o enfoque. A Sabedoria não vem das cidades, mas do campesinato. Destaca o trabalho, condena a preguiça, a exploração, a injustiça e a prepotência.

Crenshaw define a Sabedoria como a “busca da autocompreensão em relação com as coisas, as pessoas e o Criador”[38]. Segundo ele, se dá em três níveis:

-         Sabedoria da natureza: relação com o mundo;

-         Sabedoria jurídica: relação com as pessoas;

-         Sabedoria teológica: relação com Deus.

 

Para este autor, a Sabedoria é uma atitude, uma tradição e um conjunto literário. Muitos autores julgam que a Sabedoria egípcia exerceu influência na Sabedoria do Antigo Testamento. Murphy não pensa assim. Para ele, “a sabedoria bíblica surge do esforço para colocar ordem na vida do homem”[39]. A Sabedoria se forma no interior, mas sofre evolução:

- A Sabedoria da casa, do ethos do clã, da tribo

-         A Sabedoria dos funcionários da corte: se apropriam da Sabedoria popular

-         Sabedoria dos escribas: apresentam a Sabedoria como uma ética religiosa[40].

 

 

1 - Definição de Sabedoria

 

a)     Definição

Von Rad: a Sabedoria é o conhecimento prático das leis da vida e do universo, baseado na experiência;

Gazelles: a Sabedoria é a arte de ter êxito na vida humana;

Crenshaw: a Sabedoria é a busca da autocompreensão em termos de relação com as coisas, as pessoas e o Criador.

Gorgulho: A Sabedoria é o ato de discernimento da práxis[41].

Os termos hakam e hokmah têm muitos sentidos. Às vezes, parecem adivinhos e mágicos (Gn 41,8; Ex 7,1, etc.). Na maioria das vezes significam inteligência prática, destreza, astúcia (Is 3,3; Ex 36,4, etc.). Também não têm necessariamente dimensão ética, mas muitas vezes a Sabedoria significa discernimento entre o bem e o mal. Faz comparação entre o sábio e o justo, por um lado e por outro o néscio e o malvado.

O sábio percebe a Deus na criação e por isto se torna um temente a Deus, ou seja, reconhece-se como criatura (Pr 1,7; Eclo 1,14.16.18.20, etc.).

 

“Desse ponto de vista, ‘temor ao Senhor’ equivale a ‘ religião’, que não se expressa no culto, mas nos afazeres de cada dia que vão tecendo o desenvolvimento do ser humano como projeto”[42].

 

            A Sabedoria tem poucas ligações com a escatologia e a apocalíptica. Em Is 33,5-6 se diz que o Senhor encherá Sião de Sabedoria. Também os dons do Espírito Santo têm elementos da Sabedoria (Is 11,2ss): a sabedoria, o entendimento, o conselho, etc. Neste caso a Sabedoria é doação de Deus que supera o esforço humano. O mesmo ocorre em Dn 2,30 e 5,11-14. Aí a Sabedoria é doação, ou seja, revelação.

            Resumindo tudo, pode-se falar de uma Sabedoria como relação com o mundo, com os irmãos e com Deus, ou seja, uma Sabedoria da natureza, do social e de uma Sabedoria teológica.

 

 

b)     Experiência do conhecimento

 

Ø     A Sabedoria é um esforço humano de busca de normas de vida. Este esforço resulta em normas de conduta. Depende da iniciativa humana:

- Deve-se adquirir (Pr 4,5-8; Eclo 14,20-27).

- Está ao alcance (Eclo 6,32).

 

            A Sabedoria leva à plenitude da vida:

                        - Quem dá, recebe (Pr 11,25s);

                        - Quem trabalha, será saciado (Pr 12,11);

                        - Os justos serão felizes (Pr 13,21).

 

Assim, a Sabedoria é descobrir a ordem divina das coisas e se submeter a elas. Deus estabeleceu uma ordem. A Sabedoria leva o ser humano a descobrir e a se submeter a esta mesma ordem. Isto traz a felicidade ao ser humano. Chega-se, desta forma, a um verdadeiro pragmatismo teológico[43].

 

Ø     O esforço humano é coroado pelo dom sobrenatural. Quando se esgotam as possibilidades humanas, aí começa a mão de Deus (Pr 16,1-3). Depois de tudo feito, só resta confiar no Senhor (Pr 3,5). Em última análise, é Deus quem dá a Sabedoria (Pr 2,6s; Jó 28,27s; Eclo 1,9-20).

 

c) O conhecimento não é suficiente

 

            No Antigo Testamento Deus é visto como aquele que livremente dispõe. O ser humano faz sua parte, mas é Deus quem dá a vitória (Pr 21,30s). Muitas vezes os bons fracassam e os maus vencem (Ecle 7,15). Até o mal depende de Deus (Jó 2,10 – receber os males de Javé).

            Chega-se a confundir a Sabedoria com o próprio Deus (Eclo 4,12-14). Porém, o esforço humano nem sempre chega lá (Pr 30,1-31). Como não se consegue entender coisas naturais, também não se conhece os desígnios de Deus (Ecle 11,15)[44].

 

c)     O fracasso epistemológico

 

Diversas vezes a Sabedoria é personificada (Pr 1,20-33; 8,1-11.32-36; 9,1-6). Aqui a Sabedoria é igual a Deus. Rejeitar a Sabedoria é rejeitar o próprio Deus. Portanto, não se trata de apreender, mas de temor a Deus (Eclo 4,11-19). A Sabedoria tem origem em Deus (Pr 8,22-31; Eclo 24). Em Eclo 24 a Sabedoria é identificada com a Torá.

Porém, esta visão gerou crise, pois afirmar que adaptar-se à Sabedoria era adaptar-se a Deus e que isto traria a felicidade humana, nem sempre se verifica. O livro de Jó mostra que a desgraça não é fruto do pecado, ou seja, a doutrina da retribuição é falsa. Em Pr 1,20-33 temos idéia diferente, afirma-se que não aceitar a Sabedoria leva à desgraça. Já em Ecle 2,14-16 se afirma que tanto faz ser sábio ou néscio. A morte acaba com tudo. Tudo é vaidade (Ecle 3,19). Jó é mais radical do que Ecle diante da doutrina da retribuição (Jó 16,1-3). Ele deve mostrar que a retribuição é falsa (Jó 27,7).

 

 

2  – Os Sábios

 

Muitas vezes, na literatura sapiencial, se usa o chavão: “escuta, meu filho” (Pr 1,8; 2,1; 3,1; Eclo 1,28; 3,1, etc.). Isto aponta para a figura do pai e da mãe educando seu filho.

Além das figuras paternas que exercem papel importante na educação da Sabedoria, há sábios nos diversos setores da vida pública:

-         Na corte: o rei e seus assessores eram formados nas escolas dos sábios;

-         No templo: os escribas e funcionários do templo tinham formação. Eles compilavam e redigiam textos, inclusive textos sacros;

-         Nas escolas: nelas os alunos viviam e se formavam na sabedoria.

 

            Deste cenário, principalmente os escribas (rabinos) tiveram papel preponderante. Eles compilaram, produziram e transmitiram textos do Antigo Testamento.

 

            3 - Expressão literária

A tradição sapiencial não está apenas nos escritos sapiências, mas há vestígios dela em muitos lugares.

Ø     Pentateuco: José do Egito recebe o título de hkm, mas também outros personagens do Antigo Testamento se caracterizam por este adjetivo: Jacó (roubo da primogenitura), Sara (antepondo Isaac a Ismael), Rebeca (pede a Isaac mandar Jacó para a Mesopotâmia), etc.

Ø     OHD: aqui Salomão é caracterizado como o Sábio (1Rs 5,9-14). Porém, na OHD a Sabedoria, aos poucos, vai ocupar o lugar da Tora (Dt 4,5-6). Em poucas palavras, aqui Sabedoria já não é perspicácia, como nos relatos de José, de Jacó, de Sara e Rebeca, mas é observância da Lei[45].

Ø     Literatura profética: quase sempre os sábios são opositores dos profetas (Is 3,1-4; 5,18-24; 29,13-14, etc.). São os bajuladores da corte, os corruptos

Ø     OHC: os sábios são os escribas, os notários, os cortesãos e os intérpretes da Lei.

 

            Conclusão

 

            É difícil definir a literatura ou tradição sapiencial. Falta consenso quanto a isto. Em todos os casos, é possível afirmar que, no Antigo Testamento há uma tradição que se distingue da literatura histórica e profética. Esta tradição se expressa inclusive dentro da literatura história e profética, mas sua principal expressão acontece na literatura sapiencial, ora em forma de provérbios: Pr, Ecle, Eclo, Sb; ora em  forma de novelas: Rt, Tb, Jó; Ora em forma de poemas litúrgicos ou hínicos: Sl.

            O que não se pode, é confundir o gênero sapiencial com o gênero histórico, pois assim se estaria desviando o sentido último do texto, bem como seu objetivo.

 

            2.1 - O Livro dos Provérbios

 

            Introdução

            Provérbios: hmoolv. yl;v.mi Miselei Selomoh ou Provérbios de Salomão. A palavra Provérbios não traduz bem o hebraico Miselei. Caberia melhor o termo Ditado, sentença, aforismo, etc. Os primeiros cristãos chamavam o livro de Provérbios de  Sofia, assim com também os livros do Eclo e Sb.

            Há muitos erros lingüísticos nas diversas traduções, principalmente no que se refere aos capítulos 10-31. Deve-se isto aos copistas que não conheciam o tema e porque usavam livremente os textos[46]. As versões mais comuns são: a LXX (mais antiga), a Peshita siríaca, e o Targum aramaico. O texto massorético (texto oficial hebraico) se baseia na versão hebraica. A tradução da LXX muitas vezes é mal feita. Tem omissões e adições e até a ordem chega a ser diferente. Quando se fez a tradução, o texto hebraico não estava completo, por isto mesmo, os dois têm acréscimos e desdobramentos de seções.

            A Peshita faz muita mistura. Às vezes coincide com o hebraico e às vezes com a LXX. O Targum se baseia na  Peshita. A Vulgata se baseia no Texto Massorético (TM) e raras vezes segue a LXX. Na Bíblia Hebraica o livro dos Pr faz parte dos assim chamados Ketubin = Escritos. Alguns rabinos aceitam Pr como canônico junto com Ct e Ecle, outros não. O livro dos Pr é citado 20 vezes no Novo Testamento.

 

            2.1.1 – Análise literária

            a) Visão geral

            Trata-se de coletânea de diversos livretes atribuídos a Salomão. Nasce de uma longa tradição e das lutas do povo.

 

“Estas coletâneas representam o surgimento da consciência e da luta do povo face aos grandes problemas causados pela economia e pela política do sistema tributário”[47].

           

            O livro dos Pr é caótico. De 1-9 existe ordem, mas de 10-29 ele é formado por provérbios isolados e confusos. Em 1,1; 10,1; 25,1 se diz que são provérbios de Salomão. Porém em 22,17 e em 24,23 apenas se diz “dos sábios” e em 30,1 se menciona Agur, enquanto que, em 31,1 se atribui os provérbios a Lamuel. Acontecem, também, duplicações:

            Pr 18,8 se repete em 26,22; Pr 19,24 se repete em 26,15; Pr 20,16 se repete em 27,13; Pr 21,19 se repete em 25,24, etc.

 

            b) Aspectos literários

            O livro de Pr tem muitas formas literárias:

Ø     Paralelismo: em 10,1-22,16 e nos capítulos 25-29 predominam os provérbios de um verso com dois membros, que estão em paralelo. Geralmente são provérbios isolados. Exceção: Pr 12,17-23 e 16,10-15 que formam um agrupamento. Existem muitas formas de paralelismo:

q      Sinonímico: o 2º membro repete o 1º. (Pr 16,16).

q      Antonímico ou antitético: o 2º contrasta o 1º (Pr 14,1).

q      Sintético ou progressivo: o 2º prolonga o 1º (Pr 16,7).

            O Paralelismo sintético usa muito a expressão: “Como...assim...” (Pr 25-26 especialmente em 26,11 e 25,24 e ainda em 21,27). Tudo isto mostra mãos ágeis na elaboração redacional.

            Nos capítulos 22,17-24,34 os provérbios são mais extensos. É comum haver provérbios com dois versos. O 2º  verso inicia com “que” ou “porque” (Pr 23,20-21). O mesmo se percebe ainda em 23,1-3; 23,29-35; 24,30-34.

Ø     Instrução: Pr 1-9 como também 30-31 são do gênero instrução. Principalmente 1,8-19; 3,1-12.21-35; 4; 5; 6,1-5.20-35; 7,1-5.24-27. Trata-se de um gênero diferente da sentença proverbial. Ordena, manda, persuade, exorta e oferece as razões para obedecer (Pr 4,20).

Ø     Provérbio numérico: O gênero numérico se manifesta principalmente em Pr 6,16-19 e 30,18-19.21-23, mas também se encontra em outros livros (Am 1, etc.). Pretendo ativar a observação mediante comparações.

Ø     Relatos autobiográficos: O mestre faz uma autobiografia que pode ser verdadeira ou não. O objetivo é mesmo comunicar um certo ensino (Pr 7,6-23; 24,30-34; Eclo 33,16ss; Sl 37,25.35s).

Ø     Acróstico alfabético: Trata-se de um poema onde cada frase inicia com uma letra sucessiva do alfabeto: Alef, bet, guimel, etc. Pr 31,10-31.

 

d)     Estrutura do livro dos Provérbios

            “O livro dos Provérbios é uma espécie de ‘simpósio’, uma recompilação de coleções de máximas, observações e discursos originalmente independentes”[48].

            A – Pr 1-9 ..................A mulher mãe = Sabedoria

            B – Pr 10-15...............A busca da justiça

            C – Pr 16,1-22,16.......A busca da pobreza

            D – Pr 22,27-24,34.....O Deus vingador dos pobres

            C’ – Pr 25-27...............A busca da justiça

            B’ – Pr 28-29...............A busca da pobreza

            A’ – Pr 30-31...............A mulher mãe = Sabedoria[49].

 

            A figura da mulher no início do livro (Pr 1-9) e novamente no fim (Pr 31) mostra a figura da casa como projeto de reconstrução (Pós-exílio). Já não se espera nada do rei, mas da casa.

 

2.1.2       - Matriz sociológica

            a) Israel sofreu uma novidade: o sistema tributário salomônico (1Rs 5,27). Os Pr 10,1-22,16 enfrentam esta realidade colocando a saída na casa do camponês. Procuram defender a casa.

            b) O sistema tributário avilta a casa (Pr 12,24). Rouba o trigo (11,26; 15,27). A vida campesina reage (10,5; 12,9-11).

            c) A Sabedoria nasce da defesa dos valores camponeses que significa trabalho livre. “Os sábios são os anciãos das aldeias que procuram incentivar a vida segundo o antigo ethos tribal”[50]. Neste sentido, a casa é a alternativa:

-         O trabalho livre (Pr 10,5; 14,4)

-         O trabalho é um bem (Pr 12,24-27)

-         O trabalho é roubado (Pr 13,23).

 

            Os sábios formam os burocratas do Estado. Por isto mesmo, Salomão é visto como o patrono da Sabedoria. É destes sábios que brotam os escritos, porém, não são eles que a formam. A Sabedoria vem do povo. É na corte que se faz a síntese da Sabedoria. Assim nos tempos de Ezequias (Pr 25,1) se coleciona a Sabedoria popular (Pr 25-27).

            Nos tempos de Manasses começa a ingerência assíria. O povo da terra reage com o desejo de refazer a liberdade. Surge a consciência da defesa do fraco e do pobre (Pr 28-29) e se põe a esperança num rei que defenda os pobres. Os livros do Êxodo e do profeta Sofonias têm influência nesta fase.

            A Reforma Deuteronomista (622 a.C.) também marca a Sabedoria. O Deuteronomismo tem nova concepção de rei, de lei e de pobres. Assim, encontra-se influência deuteronomista em Pr 22,17-24,34 (Palavra dos Sábios). Toda coletânea  de Pr 16,1-22,16 é inspirada no Dtmo e fala da condução de Javé e do rei.

            No Exílio, tanto entre os exilados quanto entre os remanescentes, formam-se os sábios. Levitas e escribas se tornam sábios. Surgem, assim, os tementes a Deus (Ml 3,14-18). Aí se ilustra a luta entre o justo e o ímpio. Este é o chão de Pr 1-9, Jó e vários salmos. O livro de Ct está na perspectiva de Ez 16 e de Os 1-3.

            Em Pr encontra-se diversos temas:

-         A corte do Rei (Pr 25,1-7a). A autoridade de Deus é absoluta, ao rei é relativa.

-         A instância jurídica (Pr 25,7b-15). Um processo é a prática da justiça.

-         A vida na casa (Pr 25,16-24). Tudo gira ao redor da casa (v.17 e 24).

-         O justo (Pr 25,25-28). O justo é a segurança da cidade (v.28).

 

Pr 26 trata do funcionário público da corte:

-         O político estulto (Pr 26,1-12). Não serve.

-         O preguiçoso (Pr 26,13-26). É a ruína do povo.

-         O litigioso (Pr 26,17-28). Briga, não leva à justiça

 

Pr 27  é exortação para assegurar o futuro:

-         O caminho do estulto (27,1-10). O mau funcionário é um peso.

-         O caminho do sábio (27,11-17). É o equilíbrio, tem boa relação.

-         As relações de produção (27,18-27). As relações são de patrão e empregado. A ambição é um mal. São relações camponesas.

 

            2.1.3 - O estado davídico

 

            O livro dos Pr traz uma referência histórica. O rei Ezequias (Pr 25,1). Os funcionários da corte transmitem sentenças antigas, vindas do Reino do Norte, adaptados ao Reino do Sul. “O livreto (Pr 25-27) é uma teologia política que visa mostrar os fundamentos do estado davídico no tempo de Ezequias”[51]. Discute a função do trono de Davi.

            Pr 25-27 fala da honra e do trono. A honra é o fundamento do trono. Honra perpassa Pr 25-27:

-         Honra de Deus e do rei (25,2).

-         Honra do justo (25,26-27).

-         O estulto não possui a honra (26,1.8; 27,3).

 

Trata-se de uma teologia para solidificar o trono:

-         Sociedade vista a partir da corte (25,1-7). Deve-se afastar o ímpio da corte (25,5 = Is 5,8ss; 11,3s; 32,1-5).

-         Economia baseada na agricultura e pastoreio (27,23-27). Também a economia é vista a partir do trono. O que antes era do camponês (27,18a), agora é do trono (27,18b).

 

“Estes indícios permitem dizer que Provérbios 25-27 são um livrete colecionado e transmitido pelos sábios funcionários da corte de Ezequias”[52].

 

 

 

 

2.2 - Os Salmos[53]

                                              

            0 - Introdução: convêm lembrar que existe certa confusão na numeração dos Sls. Deve isto ao fato de algumas Bíblias seguirem a tradução da LXX (Septuaginta – Grega) e outras seguiram a tradução hebraica[54]. A seguir colocamos a numeração das duas traduções, com sua correspondência:[55]

LXX

1-8

9

10-112

113

114-115

116-145

146-147

148-150

Hebraica

1-8

9-10

11-113

114-115

116

117-146

147

148-150

 

Os Sl  aqui serão estudados de acordo com seu gênero e de acordo com seu momento teológico, isto é, com que momento histórico-teológico estão relacionados.

            A grosso modo pode-se dividir os Salmos de acordo com o momento histórico-teológico, da seguinte maneira:

Ø     Salmos referentes à história do Pentateuco, ou referentes ao 1. templo (970-600);

Ø     Salmos relacionados com a história Deuteronomista, ou do exílio (650-539);

Ø     Salmos ligados à história do Cronista, ou volta do exílio (539ss).

 

            2.2.1 - Salmos referentes à história do Pentateuco (1º Templo)[56]

            Estes, genericamente se dividem em Hinos, Ação de Graças e Salmos Didáco-Históricos.

 

            a) Hinos:  Sl totalmente teocêntricos, nos quais Deus é ardentemente louvado. Expressam sentimentos de louvor, alegria e adoração. “No hino, pois, o salmista entrega-se à alegria de louvar a onipotência divina manifestada na criação”[57].

            Estrutura - Geralmente

Ø     Convite para louvar a Deus

Ø     Motivos para louvor

Ø     Conclusão: geralmente repetem o convite inicial

            Os melhores exemplares desta categoria são os Sls 100; 103; 104; 117; 150. Outros Sls desta mesma ctegoria: Sl 8; 19; 29; 81; 93; 95;135; 136, etc. Também Ex 15.

 

            b) Salmos de ação de graças

            Os Sls desta categoria, geralmente seguem os seguintes passos:

Ø     Convite inicial à ação de graças

Ø     Descrição do favor

§        libertação de algum perigo – Sl 116

§        libertação de uma doença – Sl 30

§        libertação de ataque inimigo – Sl 118

§        libertação do cativeiro – Sl 107

Manifesta a alegria e gratidão. Descreve, de forma muito viva o perigo, como fez a prece e como foi salvo. Ex.: Sl 4; 18; 30; 32; 34; 40; 65; 66; 92; 107; 116; 124; 129; 138. Casos mais comuns: Sl 116; 66 e 4.

 

c) Salmos didático-históricos

Tratam da Lei ou do relacionamento do humano com Deus. A história é vista de tal forma que serve de lição. A estrutura geralmente é:

Ø     Introdução

Ø     Série de fatos históricos

Ø     Conclusão

Ex.: Sl 50 (d), 105 (dh), 106 (dh), 111 (d).

 

2.2.2 – Salmos relacionados com a história Deuteronomista

 

Esta categoria se subdivide em:

 

a) Salmos de Súplica

Salmos centrados na pessoa que suplica. O espírito do suplicante vai até Deus e volta novamente a ele. Reflete as necessidades do salmista. Sua estrutura geralmente obedece esta ordem:

Ø     Oração de petição

Ø     Necessidade do salmista

Ø     Agradecimento antecipado

Ex.: Sl 54

Ø     V.3-4 – petição

Ø     V. 5 – necessidade

Ø     V. 8-9 – agradecimento antecipado

O salmista usa linguagem forte: pede a morte dos inimigos, grita por justiça, modo hebraico de rezar. “Não se faz nenhuma distinção entre o ódio ao pecado e o amor para com o pecador”[58]. Seu raciocínio é simples: odeia o mal.

 

a.a) Salmos de súplicas coletivas

Ø     Súplica em nome de grupo ou nação

Ø     Necessidade atinge a todos

 

Ex.: Sls 80, 83 (Dta). Sls 11, 44, 60, 74, 79, 108, 123, 126, 129 (Cronista).

 

a.b) Súplicas individuais

Ø     Dificuldade do salmista: doença, perseguição, maldade, calúnia, exílio.

Ø     Confissão de pecado ou protesto de inocência.

 

Ex.: Sl 5, 6, 7, 13, 17, 22, 25, 26, 28, 31, 35, 38-39, 42-43, 51, 55-57, 59, 61, 63-64, 69-71, 86, 88, 109, 120, 140-141, 143.

 

b) Salmos de confiança

São próximos dos salmos de súplica. Também têm petição, descrição da necessidade, antecipação confiante à resposta favorável de Deus. A diferença é:

Ø     Sls de súplica: centrados em Sabedoria mesmo. Predomina a petição e a descrição da necessidade. Sai do salmista, vai a Deus e retorna ao salmista.

Ø     Sls de confiança: realça a antecipação. Sai do salmista e se concentra em Deus.

 

Ex.: Sl 3, 4, 10, 16, 23, 46, 62, 121, 131

 

c) Salmos processuais

Usados em procissões litúrgicas. Convidam a subir, a entrar. São um convite à participação no culto: Sl 24, 68, 118.

 

d) Salmos messiânicos (reais)

Caracterizam-se mais pelo tema do que pela forma literária.  Fazem parte de outros generos: Sl 8 é um hino, mas também é messiânico. Sl 16 é didático e também messiânico. Refletem a esperança por um messias. Suas principais características: Esperam nas promessas feitas aos patriarcas, na dinastia davídica (2Sm 7) e num futuro rei davídico.

Sl 2, 8, 16, 22, 45, 72, 89, 110, 132, etc.

Muitos destes salmos (2, 45, 72, 89, 110, 132) foram escritos em tempos quando as esperanças de Israel repousavam sobre a dinastia de Davi. Principalmente após o ano de 587, quando já não havia mais rei davidida. Jesus usou para si alguns destes salmos: em Lc 24,44 e Mt 22,44 se espelha o Sl 110,1.

 

 

2.2.3 – Salmos relacionados com a História do Cronista

 

A História Cronista visa incutir esperança no povo de Deus depois do fracasso da Monarquia (Exílio). Sua base é o templo e o Messias que há de vir. Apesar das desgraças, acredita nas promessas de Deus (2Sm 7; Is 40,6-7). Os sls refletem o Exílio e o pós-exílio.

 

a) Súplicas individuais de um doente

São como os demais salmos de súplica, porém dão ênfase à doença. Usam linguagem hiperbólica. Além do já visto, fazem:

Ø     Referência ao pecado

Ø     Se morrer não poderá adorar a Deus

Ø     Referência a inimigos que querem seduzi-lo

Pede que seja curado para desbaratar o inimigo.

Sls 6, 30, 88 = doença e súplica

Sls 4, 22, 30 = já foi curado, ação de graças.

Sls 6,31, 38,39,41, 69, 88, 102 = o doente ainda sofre, mas confia no socorro.

 

b) Salmos de Jerusalém e do Templo

Com Davi e Salomão, Jerusalém se tornou o centro da religião, ou seja, a cidade de Deus e o templo a sua casa. No tempo do cronista Jerusalém e o templo estavam sendo reconstruídos. Eram preciso valorizar a cidade santa e seu templo.

Os salmos desta categoria geralmente seguem a estrutura dos hinos:

Ø     Convite ao louvor (às vezes implícito)

Ø     Apresentação dos motivos de louvor

Ø     Conclusão repetindo o convite inicial

 

Sls 46, 48, 76, 84, 87, 122, 137

 

c) Salmos graduais

            Cantos que acompanhavam aqueles que subiam em peregrinação ao templo. Refletem, geralmente, o Exílio ou o Póséxilio.

            Sls 120, 122, 126

 

d) Salmos de Javé Rei

Em Israel havia a idéia da Javé como Rei, mesmo depois de se instalar a monarquia. Principalmente o 2º Is, Ez, Zc, Ml e Dn acentuaram a idéia de Javé-rei. Esta idéia sempre mais se expande, e Javé é visto como Rei do Universo.

Sls 47, 93, 95-100, 149.

 

 

2.3 -  O Livro de Jó

 

            Introdução

            Antes de uma boa leitura do livro de Jó é preciso situar o livro dentro de seu contexto. Jó não é livro histórico, mas uma parábola, ou peça de teatro que tem seu objetivo de apresentar uma certa visão teológica do sofrimento, em contestação a uma visão tradicional, ou seja, da teologia da retribuição. A religião oficial ensinava que, o que aqui se faz, aqui se paga. Logo, quem faz o bem recebe bênçãos de Deus, quem faz o mal é punido. Quando alguém é bem sucedido na vida, tem muitos bens, isto seria prova de que ele é justo. Pelo contrário, a miséria, os desastres, as doenças e a pobreza seriam um indício de que seu portador seria um pecador. Na época da redação ainda não é generalizada a fé numa vida após a morte, por isto, os judeus de então esperavam recompensa já aqui na terra para suas boas obras ou para a sua justiça. Esta visão teológica, no entanto, trazia problemas, pois legitimava o status quo da sociedade que marginalizava o pobre, ou seja, os ricos e bem sucedidos eram vistos como os bons, os próximos a Deus e os pobres como pecadores que estavam pagando seus pecados. Eles eram culpados de sua desgraça. Ainda nos tempos de Jesus, os apóstolos pensavam que os ricos estivessem mais perto de Deus. Estranharam quando Jesus diz que dificilmente eles entram no Reino: “Então, quem pode ser salvo?” (Mc 10,26). O livro de Jó quer mostrar que não é bem assim. Jó é um homem justo que sofre e este justo questiona a Deus, ou melhor, questiona a teologia que ensina tal coisa. Questiona o Deus da religião oficial, ou dos dominantes.

 

            O livro de Jó pode ser dividido em dois blocos:

            1) Jó 1,1-2,13 e 42,12-17 - parte velha

            2) Jó 3,1-42,11 - parte nova

           

            Como foi visto, o livro não foi escrito de uma só vez, ele foi completado. Talvez, o redator tivesse se valido de uma velha lenda (Jó 1,1-2,13 e 42,12-17) e lhe tivesse dado nova interpretação, acrescentando os capítulos 3-42. Percebe-se isto quando se constata a parte nova não fecha com a parte velha. Nesta se apresenta Jó como o homem paciente, naquela Jó reclama e protesta até contra Deus.

            Segundo alguns autores, o livro de Jó teria sido escrito no Exílio e Jó seria a figura do povo exilado que perdeu todos os seus bens, seus filhos (2Rs 24), um povo sem esperanças que não podia entender sua sorte de exilado. O livro de Jó seria uma tentativa de reerguer a cabeça dos desanimados como também o faz Is 52,13-53,12 (Servo Sofredor). Segundo outros autores, o livro de Jó seria do pós-exílio, época de profundas crises, quando o judaísmo se reestrutura e cria uma religião pesada que oprime os pobres.

            Aqui se opta pela segunda possibilidade. Por isto, tentar-se-á descrever esta época.

 

            2.3.1 - O período pós-exílico

            Nos anos 539 a.C. o imperador persa permitiu que os exilados voltassem para a sua terra (Esd 1,1-11). Voltando a Jerusalém, os repatriados encontram apenas ruínas. Começam, então a reconstruir o templo e a cidade (Esd 4,24ss). No entanto, o império persa não devolvia tudo aos repatriados. Estes eram obrigados a pagar pesados tributos ao império. Fala-se que Judá devia pagar o equivalente a 2.100.000 dias de trabalho por ano. Ao lado do tributo pago aos persas, o povo devia pagar outro tributo que era destinado ao templo. Somando os dois tributos, o agricultor se desfazia de aproximadamente 58% de sua colheita e de seus rebanhos.

            Em Jerusalém, uma elite se apoderou do templo e da religião e cooperava com os persas, arrecadando os tributos do povo para pagar a estes. Muitas vezes o pequeno agricultor não conseguia pagar seus tributos, então recorria à elite, fazendo empréstimos (Ne 5,1-5). Assim, aos poucos, o pobre perdia suas terras, seus animais, seus filhos. Faminto, ficava doente e abandonado por todos (Jó). Os ricos se aproveitavam desta situação (Is 59,3-9). A elite contava a lenda da paciência (Jó 1-2 e 42,12-17) para acalmar o povo. O povo devia ser paciente. Deus tirava colheita, animais e filhos, deixava o povo cair na miséria, mas a seu tempo Deus devolveria tudo em dobro.

Para melhor dominar o povo e arrecadar os tributos para os persas e para o templo, os sacerdotes judeus instituíram um culto baseado no puro e impuro. Havia coisas impuras (Lv 13-14) animais impuros (Lv 11), o parto era impuro (Lv 12), etc. Quem estivesse em tais circunstâncias devia se purificar, oferecendo sacrifícios no templo (Lv 4,27 e 7,38). Ora, o pobre exercia funções onde diariamente entrava em contato com a impureza. Para se purificar ele enriquecia a elite do templo. Deus, agora é monopólio do templo, só se pode chegar a ele passando as portas do templo. Não é mais o Deus do Êxodo 3,7 que escuta o clamor do povo.

            Para esta elite, a teologia da retribuição era uma arma para acalmar os ânimos. Os bem sucedidos são os prediletos de Deus. Os sofredores são culpados de sua sorte. Devem ter paciência.

 

            2.3.2 - Jó, uma reação popular à teologia oficial

            Jó começa a questionar o Deus das elites. Questiona seriamente seu estado de vida ocasionado pela exploração (Jó 3). Elifaz, Baldad e Sofar, representantes da religião oficial querem convencer Jó a aceitar seu estado de culpa. Você sofre porque fez pecado. Humilhe-se e peça perdão (4-11). Jó não aceita a teologia dos representantes da religião do templo (12-14). Os representantes da religião oficial fazem novo apelo para meter sua teologia goela abaixo (15-20). O mesmo se verifica em Jó 21-27.

Uma novidade acontece em 29-31 e 38,1-42-6. Jó fala diretamente a Deus e protesta contra ele. Recebe uma resposta de Deus (38,1ss). Esta resposta faz ver que Deus é diferente daquele pintado pela religião oficial. É o Deus da vida. Jó deve mudar sua cabeça. Deus não é culpado do sofrimento, este vem dos sistemas (Pérsia e religião judaica).

 

             Conclusão

            O livro de Jó, às vezes coloca certa ousadia na boca de Jó. Esta arrogância é a pedagogia que o livro usa para enfrentar, não a Deus, mas a falsa imagem que se tem de Deus. Deus é bem outro. O livro enfrenta a religião oficial, baseada no puro e no impuro, na retribuição. O sofrimento não vem de Deus, mas dos sistemas político-econômicos e religiosos. Estes têm um falso Deus que deve ser enfrentado e desmascarado. Este é o grande desafio para hoje. A visão que se tem de Deus pode impedir o acesso a ele.

 

 

 

2.3.4 -Jó, o homem paciente que se tornou impaciente

                                                  (Conforme artigo para o Correio Riograndense - Set. 1996)

 

            Introdução

            Antes de estudar o livro de Jó convém dizer que este livro não é uma história de uma pessoa. Jó é um personagem que lembra o pequeno agricultor de Judá que, devido a uma política desastrada do imperador persa acaba perdendo tudo o que tem. Então, pode-se definir o livro de Jó como uma novela, lenda, ou mesmo parábola que tenta interpretar a vida do povo agricultor daquela época.

 

            a) O momento histórico

            Nos anos 597-587 a.C. a Babilônia invade Judá e leva grande parte dos moradores de Jerusalém para o exílio, arrasa o templo e a cidade santa (2Rs 24-25). Aproximadamente 60 anos mais tarde a Babilônia se enfraquecera e surge o império dos persas que assume os domínios do antigo império da Babilônia. Assim também os judeus exilados caem nas mãos de novos senhores. Em 539 a.C. o rei da Pérsia permite que os exilados voltem para a sua pátria (Esd 1,1-11). Os repatriados podem reconstruir Jerusalém, seus muros e também o templo, mas não se tornam independentes. Todos os anos eles devem pagar pesados tributos aos senhores da Pérsia. Além dos impostos pagos aos persas, deviam também pagar 10% de seus produtos para a reconstrução de Jerusalém, do templo e da sustentação dos sacerdotes. Somando os tributos devidos aos persas e a Jerusalém, o agricultor se desfazia de aproximadamente 58% de suas colheitas. Muitas vezes o pequeno agricultor não conseguia pagar seus tributos, ficava então obrigado a pedir empréstimo aos mais ricos para saldar a dívida. Desta forma ele acabava hipotecando seus animais, suas casas e até seus filhos eram vendidos como escravos (Ne 5,1-5; Is 59,3-9 e Jó 24,1-12). O agricultor ficava sem nada e morria de fome e de doenças próprias a este estado de vida.

 

            b) A ideologia que legitima

            Os sacerdotes que reconstruíram o templo eram também encarregados de cobrar os tributo para os persas, pois não havia outro governo em Judá. Para que o povo não se revoltasse os sacerdotes pensaram uma ideologia que fizesse a mentalidade da época. Criaram a teologia de retribuição e da paciência. Diziam que o que aqui se faz, aqui se paga. Quem faz o bem recebe bens de Deus e quem age mal é castigado por Deus. Desta forma metiam na cabeça do pequeno agricultor depauperado que suas desgraças eram causados pela sua infidelidade a Deus.

            Para melhor extorquir o povo, os sacerdotes do templo criaram a religião do puro e do impuro (Mc 7,1ss). Havia coisas e profissões impuras (Lv 11-14). Tornando-se impuro, era necessário se purificar através de um rito (Lv 4,27 e 7,38). Tal rito mais uma vez extorquia o pequeno agricultor que devia oferecer sacrifícios ao templo. O templo enriquecia às custas das impurezas do povo.

 

            c) Jó, uma novela que reage

            Neste cenário nasce o livro de Jó. A primeira parte (Jó 1,1-2,13 e 42,12-17) nasceu entre os que querem manter a situação. Ali o pequeno agricultor (Jó) perde tudo o que tem (Jó 1 e 2) e não reclama de nada, pois tudo foi tirado por Deus. “Javé me deu tudo e Javé tudo me tirou. Bendito seja o nome de Javé”(Jó 1,21). Desta forma os mentores convencem o povo de que a desgraça é vontade de Deus e que, portanto, ninguém deve se revoltar. A novela termina dizendo que Jó foi recompensado e recebeu o dobro dos bens que possuía (Comparar Jó 1,1-3 com Jó 42,12-17). Esta novela se prestava bem para tirar a culpa do império persa e do templo de Jerusalém, empurrando tudo para Deus. Desta forma o pequeno agricultor não questionava a ordem política e social, pois tudo era vontade de Deus. Porém, a novela não parou nos capítulos acima citados. Outras mãos acrescentaram os capítulos 3,1-42,11. Esta parte do livro de Jó destoa completamente dos capítulos 1; 2 e 42,12-17. Agora Jó já não é o homem paciente e resignado, mas sim é o homem que protesta e até maldiz o dia em que nasceu (Jó 3). Jó é agora um revoltado que não aceita sua sorte, ou seja, o pequeno agricultor que já sabe que a situação em que vive não deve ser aceita, pois não é justa.

            Os três “amigos” (ou falsos amigos) que visitam Jó (Jó 2,11-13) são os representantes do templo que querem conscientizar o pequeno agricultor a não reclamar contra seu sofrimento, pois segundo eles, Jó é culpado pelos seus males. Deus está castigando. Jó não deve questionar a Deus. Assim se pode analisar os três discursos de cada amigo:

            Elifaz - Jó 4-5; 15; 22.

            Baldad - Jó 8; 18; 25-26.

            Sofar - 11; 20; 24,18-25; 27,13-23.

            Os três “amigos” de Jó querem, a todo custo convencê-lo de que Deus é justo. Se Jó está sofrendo, isto se deve à sua própria malícia. Note-se que os “amigos” usam o nome de Deus para enganar o pobre agricultor. Jó, no entanto, já evoluiu e não aceita mais a explicação fatalista dos representantes do templo. Agora convém analisar as respostas de Jó aos “amigos”: Jó 6-7; 9-10; 12-14; 16-17; 19; 21; 23,1-14,17; 27. Jó insiste em dizer que é inocente, não aceita a velha teologia dos “amigos”. Questiona até a Deus (Jó 13,3). Questiona Deus da forma como os falsos amigos o pintaram.

            A novela termina dizendo que Javé aprovou a forma como Jó, o impaciente, falava de Deus, mas reprovou os discursos dos “amigos” (Jó 42,7-11). Javé, o Deus verdadeiro, não fica indiferente diante do sofrimento do povo, pois ele é o Deus da vida (Ex 3,7-10; Ver também como Jesus entendia sua missão no evangelho de Jo 10,10).

 

            Conclusão

            O livro de Jó é bem atual, pois também hoje existe, na mentalidade popular a idéia de que os sofrimentos que afligem o povo são vontade de Deus ou do demônio (Jó 1,6ss; 2,1ss). Desta forma as pessoas se acomodam, não lutam contra as injustiças e desviam seu olhar dos verdadeiros culpados. Muitas doenças que são causadas pelas péssimas condições de vida do povo acabam sendo atribuídas a Deus e como tais são aceitas passivamente. O velho ditado “O que aqui se faz aqui se paga” legitima tantos sofrimentos e dá a impressão de que os pobres são maus e culpados por tudo o que acontece, enquanto os bem sucedidos são bons e abençoados por Deus. Se assim fosse, os milionários que não conhecem nenhuma carência deveriam todos ser santos.

            Também hoje existem os falsos amigos de Jó que querem fazer a cabeça do povo falando erroneamente de Deus (Jó 42,7-11). Basta pensar em certos discursos sectários onde se quer expulsar o demônio em toda doença, conflito, desemprego, etc. Isto desvia a atenção dos verdadeiros culpados. Edir Macedo afirmou que o Brasil vai mal porque a maioria do povo é católica. Com isto se aceita pacificamente as injustiças sem perceber qual é a causa da miséria do Brasil. Para muitos políticos esta pregação é oportuna, pois podem agir na surdina e o desastre econômico, político e social decorrente de suas péssimas gestões terá um bode expiatório: Deus.

 

         2.4 - O Livro de Rute

 

            0 -  Introdução:  Por que escolhi este livro? Em nossos tempos fala-se muito no papel importante da mulher. Muitas vezes, tenta-se resgatar sua dignidade, que aliás, nunca foi perdida, mas ignorada e até desprezada. A mulher de nossa sociedade machista, é uma excelente executora de tarefas, mas dificilmente é vista como sujeito.

            No livro de Rute as principais personagens são mulheres, e o que chama atenção, elas têm papel ativo. São solidárias, são pobres e lutam por vida e por dignidade. Convém ainda ressaltar que, naquela época não era nada comum mulher ter tal destaque, e ainda mais, uma mulher estrangeira. O Livro de Rute parece destoar totalmente da literatura bíblica daquela época, com raras exceções, como será analisado logo abaixo.

            Se o livro de Rute é uma novidade na Bíblia, também hoje ele é um documento importante para a valorização da mulher bem como para o reconhecimento de sua ação e ainda para animá-la na luta do dia-a-dia.

            De fato, nas lutas de hoje, tanto nas sociais como nas eclesiais, a mulher quase sempre está na ponta. Ela encabeça lutas, ela catequiza, ela evangeliza. Porém, na hora do reconhecimento ela fica excluída. Como já foi visto, ela é valorizada enquanto executora ou colaboradora do homem.

            O Livro de Rute tem muito a contribuir, pois realça a vida de mulheres, dentre as quais, uma é pobre, estrangeira, viúva, sem filhos, mas solidária e trabalhadora, bem como decidida a buscar seus direitos.

 

            2.4.1 - O contexto

            No início do livro de Rute se diz: "No tempo em que os juízes governavam..."(Rt 1,1). Porém, não se deve buscar aí a sua origem, pois que, no mesmo livro se diz que Rute foi avó de Davi (Rt 4,17). Ora, um livro que tem sua origem no tempo dos juízes, não pode falar de Davi que viveu bem mais tarde.

            Deve-se situar o livro de Rute depois da volta do Exílio da Babilônia (aproximadamente por 440aC.) O livro coincide com o projeto de Esdras e Neemias de reconstruir Jerusalém. Principalmente Esdras tem um projeto de proibir que judeus se casem com pessoas de outras raças. Expulsa as mulheres e os filhos que não fossem judeus  (Esd 9-10 e Também Ne 13,23ss). Esdras pensa que a pureza das raças é requisito para Judá prosperar. Esta mentalidade se espalhou muito no meio do judaísmo, fazendo com que sempre mais se fechasse frente a outros povos. Neste contexto estão as raízes dos fariseus (separados). Ainda nos tempos de Jesus esta mentalidade imperava.

            Neste contexto de pureza racial, onde a justiça cedia lugar à prepotência, onde os pobres eram enxotados: mulheres e crianças não contam, onde nasce o exclusivismo farisaico, aparecem vozes de resistência: o Cântico dos Cânticos, Terceiro Isaías (Is 56-66) principalmente no cap. 56, e Rute.

            O livro de Rute extrapola totalmente o projeto de Esdras (9-10) e de Neemias (13). Para começo de história uma família de judeus vai para as terras de Moab (Rt 1,1). Os homens, Elimelec, Maalon e Quelion morrem, saem de cena. Doravante só as mulheres fazem história. A lenda, ou novela, faz das mulheres agentes. Elas se movem, decidem e vencem. Sendo mulheres, já vão além do mundo habitual delas, além do mais, como já foi dito, Rute é estrangeira, mas é fiel a Javé e é solidária com sua sogra Noemi, bem como é também fiel às tradições israelitas: Resgate e Levirato. Logo, Rute é mulher digna e, por isto mesmo é agraciada por Javé, tornando-se avó de Davi.

            Com esta novela, os autores destroem a concepção de Esdras e Neemias. Pois que, aqui todos têm vez, e todos podem praticar a justiça e o bem. A renovação de Israel não está na pureza da raça, mas muito antes na justiça, na solidariedade. Poder-se-ia dizer: Rute preconiza um modelo clânico. Em outras palavras: A solução dos problemas dos repatriados da Babilônia, não está na pureza racial, mas sim, na vida do clã como era antes da monarquia. Aqui, o que importa, são critérios como a família, a solidariedade, a luta, não importando se existem no meio pessoas de outras raças. Todos juntos podem construir a vida.

 

            2.4.2 - Análise do Livro

            Um dos temas bastante comuns na Bíblia é a esterilidade. Pode-se lembrar Saara(Gn 16), Rebeca (Gn 25,19ss), Raquel (Gn 29, 31ss), Ana (1Sm 1,2), a mãe de Sansão (Jz 13,2ss), Isabel (Lc 1,18ss), etc. Sempre Deus entra na vida destas estéreis e, como grande bênção, elas concebem e dão à luz seus filhos.

            Também no livro de Rute há alguma semelhança. Muito embora não se fale em esterilidade, fala-se em velhice de Noemi (Rt 1,12) e da viuvez de Orfa e Noemi (1,5). Todas, no entanto, impossibilitadas de ter filhos. Há, para este clã, além da fome, da migração, uma forte ameaça de extermínio. Noemi e idosa, sem esperança, Rute é viúva. Porém, há entre as duas um forte elo de amor que gera vida. A vida gerada por Rute  (Obed Rt 4,14ss) é também a vida de Noemi, a velhinha. Além da ameaça de não ter descendência, paira, também sobre elas a ameaça da fome (Rt 1,1). Também esta ameaça é resolvida por Javé. "Javé lhe pague o que você fez. Que você receba uma grande recompensa de Javé, Deus de Israel, pois foi debaixo das asas dele que você veio buscar abrigo" (Rt 2,12).

O livro mistura duas leis vigentes no judaísmo de então:

1) O Levirato ( Dt 25,5-10)

            "Quando dois irmãos moram juntos e um deles morre sem deixar filhos, a viúva não sairá de casa para casar-se com nenhum estranho; seu cunhado se casará com ela, cumprindo o dever de cunhado" (Dt 25,5).

            2) O Resgate (Lv 25,23-25).

            "Se um irmão seu cai na miséria e precisa vender algo do patrimônio próprio, o parente mais próximo dele, irá até ele e resgatará aquilo que o irmão tiver vendido" (Lv 25,25).

            As duas leis no caso querem favorecer as duas mulheres. Um parente de Elimelec quer resgatar a terra que este tivera de vender, mas, para que esta não seja alienada, deverá casar com a viúva Rute (Rt 4,5). Desta forma, a terra ficará na família, isto é, no clã. Ao mesmo tempo em que o clã tem a garantia da terra, tem também, a garantia do sustento, da moradia e da descendência. Resolve-se para elas, sob a proteção de Javé, tanto o problema da esterilidade, da fome, como o da terra. Como Jó, elas vencem.

            Além desta análise, convém ainda destacar alguns pontos:

            a) Como Jó, Noemi e Rute suportam as duras provações. Noemi se preocupa da felicidade de Rute, e esta, da felicidade daquela.

            b) Javé conduz Rute ao campo certo, conduz o plano de Noemi e dá um filho como bênção.

            c) Booz é um fiel cumpridor da Tradição.

            d) No texto aparece abertura para os estrangeiros como no livro de Jonas

            e) Duas mulheres lutam juntas pela vida.

            f) As mulheres têm perspectiva diferente dos homens. Estes pensam no Levirato (Dt 25,5-10), isto é, se alegram porque Rute poderá dar filhos a Booz (Rt 4,11-12). Assim também o nome de Elímelec de Maalon e de Quelion estarão preservados. Já Noemi e Rute pensam diferente. Noemi quer que suas duas noras voltem para sua terra para achar marido (Rt 1,9ss) e não se ocupa propriamente com a questão do Levirato. Ela pensa na felicidade das noras, apenas. E quando nasce Obed (Rt 4,16ss) as mulheres se alegram porque este menino será o gozo da avó velhinha. Rute não procura Booz com a intenção de ter descendentes para o esposo falecido, mas porque ela e sua sogra querem viver.

g) O Amor de Rute por sua sogra é melhor do que sete filhos (Rt 4,15). Este é o elo que une a vida do clã e que salva a situação da velhinha. Sem este amor, Noemi teria ficado sem descendência e sem alimento.

 

            2.4.3- Por que foi escrito?

            Diante do que se disse na Introdução e no capítulo referente ao contexto e análise, pode-se deprender o seguinte: A proposta de Esdras e Neemias (Esd 9-10 e Ne 13) não pode reconstruir Judá. A lenda ou novela de Rute, certamente inspirada na vida real, quer mostrar que há outros critérios. Não se descarta a possibilidade dos casamentos mistos, mas se pede justiça, solidariedade, perseverança, enfim todas aquelas qualidades que são destacadas em Rute e Noemi. A solução, ao que parece, diz o livro, está na vida clânica, onde se respeita as tradições, mas também onde se vive os valores de Rute e de Noemi. Problemas existem, tanto na vida real, como na novela de Rute, mas eles se tornam solúveis à medida que o estilo de vida de Rute for vivido pelo povo, e não pela injusta expulsão de mulheres e crianças estrangeiras. Rute, a estrangeira, além de modelo, é também progenitora de Davi, isto significa, foi aprovada por Deus.

            Pode-se, então dizer, o Livro de Rute foi escrito como reação a um projeto cruel (Esdras e Neemias) que era excludente e nacionalista. Sendo reação, é também um projeto, ou seja, apresenta uma alternativa para solucionar os graves problemas do pós-exílio,  assim como também fizera o Terceiro Isaías (Is 56-66).

 

            2.4.4 - Mensagem

            Hoje, pelo menos três problemas que afligem  o povo encontram eco no livro de Rute:

            a) Racismo: O exclusivismo racial, o aphartheid não são fatos do passado. Principalmente contra negros , índios e outros grupos minoritários. Alguns povos julgam-se superiores. Basta lembrar os terrores do Nazismo, o Apartheid na África do Sul e mesmo a situação dos negros e índios no Brasil.

            b) Machismo: A cultura, tanto do ocidente como do oriente, discrimina violentamente a mulher. Tanto nas famílias, como no trabalho e nos direitos sociais, a mulher não é valorizada como o homem. Muitas vezes é vista como objeto de satisfação. A ela não são dadas condições de igualdade.

            c)Falsas Soluções: Para os problemas de hoje, buscam-se soluções, onde elas não estão: para evitar a pobreza quer-se controlar a natalidade, para evitar a fome, propaga-se o aborto, etc. Como se as crianças dos pobres fossem a causa dos problemas econômicos e sociais. Enquanto muitos são induzidos a colocar a culpa nos pobres, os ricos impedem de fazer as verdadeiras reformas, retendo para si as maiores fatias do produto nacional.

            Frente a estes problemas apontados: racismo, machismo falsas soluções, o Livro de Rute tem uma mensagem bem concreta: mostra a vida simples, onde também a mulher tem voz ativa, onde ela busca suas tarefas e direitos, mesmo a mulher mais excluída, a estrangeira. Por outro lado, toca nos problemas reais: fome, esterilidade e terra não como se fosse decorrência de casamentos mistos, apelando para soluções que nada tem a ver com a realidade, mas aponta para caminhos concretos.

            Hoje, os cristãos são convidados a olhar, sem preconceitos de raça, de sexo e ver na organização dos simples uma possibilidade de solução.Olhar para os problemas não da forma como os poderosos querem, mas percebê-los como realmente são.

            Rute e Noemi, duas mulheres que lutam pelos seus direitos e vencem.

 

 

            BIBLIOGRAFIA BÁSICA

 

ASENSIO, V.M. Livros sapienciais e outros escritos. S. Paulo: Ave Maria, 1994

CERESKO, A.E. A Sabedoria no Antigo Testamento – espiritualidade libertadora. S. Paulo: Paulus, 2004

ELLIS, P. Os homens e a mensagem do Antigo Testamento. Aparecida: Santuário, 1985

GORGULHO, G.; ANDERSON, A. F. Os sábios na luta do povo. 1987

GOTTWALD, N. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. S. Paulo: Paulinas, 1988

MAZZAROLO, I. A Bíblia em suas mãos. Porto Alegre: EST, 1995

TUA Palavra é vida. Rio de Janeiro/São Paulo: CRB/Loyola, 1993, Vol.4

 

 

 

 

 

 



[1] SCHOTTROFF, L. A narrativa da Criação: Gênesis 1,1-2,4a. In:Gênesis a partir de uma leitura de genero. p.25ss.

[2] SCHWANTES, M. Projetos de esperança. p.27.

[3] DATTLER, F. Gênesis. p.23s.

[4] SCHWANTES, M. Op. cit. p.77ss.

[5] SCHWANTES, Op. Cit.p.73ss.

[6] DATTLER, Op. Cit. p.39ss

[7] BETCHTEL, Lyn. Repensando a interpretação de Gênesis 2,4b-4,24. In: Gênesis a partir de uma leitura de Gênero. p.87ss.

[8] SCHWANTES, Op. Cit. p.56ss.

[9] DATTLER, Op. Cit. p.62ss.

[10] GRELOT, P. Homem, quem és?p.63ss.

[11] SCHWANTES, op. Cit. p.42ss.

[12] SCHWANTES, Op. Cit. p.66ss.

[13] DATTLER, Op. Cit. p.89ss.

[14] GOTTWALD, N. As tribos de Ihaweh. p.50s.

[15] GOTTWALD, N. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. p.154.

[16] A quem interessar possa, convém consultar o livro de Peter Ellis: Os homens e a mensagem do Antigo Testamento. Aparecida: Santuário, 1985 a partir da p.64.

[17] KONINGS, J. Bíblia, sua história e leitura: uma introdução. P.114ss.

[18] DATTLER, Op.cit. p.95ss.

[19] KONINGS, J.Op. cit. p.112.

[20] KONINGS, Op. cit. p.116.

[21] Idem,p.47.

[22] As tradições de Moisés vão além do livro do Êxodo. Também o livro dos Números, principalmente nos capítulos 10-36 reúne alguma destas tradições.

[23] GOTTWALD, N. Análise socioliterária da Bíblia Hebraica. p.179ss.

[24] Um estudo ilustrado sobre as fontes, idêntico a este, encontra-se em ELLIS,P. Op. Cit. p.63ss.

[25] ELLIS, P. Op.cit. p.24.

[26] SCHWANTES, M. História de Israel. p.63ss.

[27] Hapiru não é uma raça, mas uma categoria social, ou seja, escravos fugitivos que se tornaram assaltantes ou mercenários de guerra.

[28] Os relatos abraâmicos constatam que a cidade é negativa. Abraão entra em conflito com as cidades (Gn 14), as mulheres são roubadas nas cidades (Gn 12,10-20; 20,122; 26,1ss). Sodoma e Gomorra são o sinal de depravação (Gn 18).

[29] O tema do Êxodo é retomado muitas vezes. Gn 1-2, texto mais novo, mostra o homem livre por vocação. O mesmo se diga dos profetas. Eles querem refazer o êxodo. Também Cristo refaz o Êxodo, pois ele veio libertar os oprimidos (Lc 4,14-20). Sua morte reinterpreta a páscoa, isto é, o êxodo. Paulo também fala da libertação radical do pecado. Cf. CROATTO, S. Êxodo – uma hermenêutica da liberdade. p. 35ss.

[30] MACKENZIE, J. Verbete: Deuteronômio. In: Dicionário Bíblico.

[31] MESTERS, C. Deus, onde estás? p.66

[32] GOTTWALD, N. Op. cit. p.364

[33] Idem, p.365.

[34] Comumente se chama a tradição sapiencial simplesmente de A Sabedoria. Não confundir com o Livro da Sabedoria que é apenas um livro da tradição sapiencial ou da Sabedoria.

[35] ASENSIO, V.M.Livros sapienciais e outros escritos. p.20.

[36] Idem, p. 21.

[37] ANDERSON, A.F.; GORGULHO, G. Os Sábios na luta do Povo. p.3.

[38] ASENSIO, Op. cit. p.23.

[39] Ibidem, p.24.

[40] ANDERSON, Op. Cit. p.4.

[41] Idem, p.5.

[42] ASENSIO, Op. Cit. p.34.

[43] Ibidem, p.38.

[44] Ibidem, p.42.

[45] Ibidem, p.61.

[46] ASENSIO, Op. Cit. p.98.

[47] ANDERSON, Op. cit. p.9.

[48] ASENSIO, Op. Cit. p.103.

[49] ANDERSON, Op. cit. p. 12.

[50] Idem, p.14.

[51] Idem, p.22.

[52] Idem, p.24.

[53] Trabalho baseado em Peter Ellis: os homens e a mensagem do Antigo Testamento.

[54] As Bíblias católicas mais antigas seguiam a LXX e as protestantes seguem a Hebraica. As Bíblias mais novas seguem a Hebraica.

[55] ELLIS, Peter. Os homens e a mensagem do Antigo Testamento. p.114.

[56] Esta classificação está de acordo com Peter Ellis.

[57] ELLIS, Peter. Os homens e a mensagem do Antigo Testamento. Aparecida: Santuário, 1985, p.118.

[58] Idem, p.212.