O LIVRO DE JÓ

                                                          

            Introdução

            Antes de uma boa leitura do livro de Jó é preciso situar o livro dentro de seu contexto. Jó não é livro histórico, mas uma parábola, ou peça de teatro que tem seu objetivo de apresentar uma certa visão teológica do sofrimento, em contestação a uma visão tradicional, ou seja, da teologia da retribuição. A religião oficial ensinava que, o que aqui se faz, aqui se paga. Logo, quem faz o bem recebe bênçãos de Deus, quem faz o mal é punido. Quando alguém é bem sucedido na vida, tem muitos bens, isto seria prova de que ele é justo. Pelo contrário, a miséria, os desastres, as doenças e a pobreza seriam um indício de que seu portador seria um pecador. Na época da redação ainda não é generalizada a fé numa vida após a morte, por isto, os judeus de então esperavam recompensa já aqui na terra para suas boas obras ou para a sua justiça. Esta visão teológica, no entanto, trazia problemas, pois legitimava o status quo da sociedade que marginalizava o pobre, ou seja, os ricos e bem sucedidos eram vistos como os bons, os próximos a Deus e os pobres como pecadores que estavam pagando seus pecados. Eles eram culpados de sua desgraça. Ainda nos tempos de Jesus, os apóstolos pensavam que os ricos estivessem mais perto de Deus. Estranharam quando Jesus diz que dificilmente eles entram no Reino: “Então, quem pode ser salvo?” (Mc 10,26). O livro de Jó quer mostrar que não é bem assim. Jó é um homem justo que sofre e este justo questiona a Deus, ou melhor, questiona a teologia que ensina tal coisa. Questiona o Deus da religião oficial, ou dos dominantes.

            O livro de Jó pode ser dividido em dois blocos:

            1) Jó 1,1-2,13 e 42,12-17 - parte velha

            2) Jó 3,1-42,11 - parte nova

           

            Como foi visto, o livro não foi escrito de uma só vez, ele foi completado. Talvez, o redator tivesse se valido de uma velha lenda (Jó 1,1-2,13 e 42,12-17) e lhe tivesse dado nova interpretação, acrescentando os capítulos 3-42. Percebe-se isto quando se constata a parte nova não fecha com a parte velha. Nesta se apresenta Jó como o homem paciente, naquela Jó reclama e protesta até contra Deus.

            Segundo alguns autores, o livro de Jó teria sido escrito no Exílio e Jó seria a figura do povo exilado que perdeu todos os seus bens, seus filhos (2Rs 24), um povo sem esperanças que não podia entender sua sorte de exilado. O livro de Jó seria uma tentativa de reerguer a cabeça dos desanimados como também o faz Is 52,13-53,12 (Servo Sofredor). Segundo outros autores, o livro de Jó seria do pós-exílio, época de profundas crises, quando o judaísmo se reestrutura e cria uma religião pesada que oprime os pobres.

            Aqui se opta pela segunda possibilidade. Por isto, tentar-se-á descrever esta época.

 

            1 - O período pós-exílico

            Nos anos 539 a.C. o imperador persa permitiu que os exilados voltassem para a sua terra (Esd 1,1-11). Voltando a Jerusalém, os repatriados encontram apenas ruínas. Começam, então a reconstruir o templo e a cidade (Esd 4,24ss). No entanto, o império persa não devolvia tudo aos repatriados. Estes eram obrigados a pagar pesados tributos ao império. Fala-se que Judá devia pagar o equivalente a 2.100.000 dias de trabalho por ano. Ao lado do tributo pago aos persas, o povo devia pagar outro tributo que era destinado ao templo. Somando os dois tributos, o agricultor se desfazia de aproximadamente 58% de sua colheita e de seus rebanhos.

            Em Jerusalém, uma elite se apoderou do templo e da religião e cooperava com os persas, arrecadando os tributos do povo para pagar a estes. Muitas vezes o pequeno agricultor não conseguia pagar seus tributos, então recorria à elite, fazendo empréstimos (Ne 5,1-5). Assim, aos poucos, o pobre perdia suas terras, seus animais, seus filhos. Faminto, ficava doente e abandonado por todos (Jó). Os ricos se aproveitavam desta situação (Is 59,3-9). A elite contava a lenda da paciência (Jó 1-2 e 42,12-17) para acalmar o povo. O povo devia ser paciente. Deus tirava colheita, animais e filhos, deixava o povo cair na miséria, mas a seu tempo Deus devolveria tudo em dobro.

Para melhor dominar o povo e arrecadar os tributos para os persas e para o templo, os sacerdotes judeus instituíram um culto baseado no puro e impuro. Havia coisas impuras (Lv 13-14) animais impuros (Lv 11), o parto era impuro (Lv 12), etc. Quem estivesse em tais circunstâncias devia se purificar, oferecendo sacrifícios no templo (Lv 4,27 e 7,38). Ora, o pobre exercia funções onde diariamente entrava em contato com a impureza. Para se purificar ele enriquecia a elite do templo. Deus, agora é monopólio do templo, só se pode chegar a ele passando as portas do templo. Não é mais o Deus do Êxodo 3,7 que escuta o clamor do povo.

            Para esta elite, a teologia da retribuição era uma arma para acalmar os ânimos. Os bem sucedidos são os prediletos de Deus. Os sofredores são culpados de sua sorte. Devem ter paciência.

 

            2 - Jó, uma reação popular à teologia oficial

            Jó começa a questionar o Deus das elites. Questiona seriamente seu estado de vida ocasionado pela exploração (Jó 3). Elifaz, Baldad e Sofar, representantes da religião oficial querem convencer Jó a aceitar seu estado de culpa. Você sofre porque fez pecado. Humilhe-se e peça perdão (4-11). Jó não aceita a teologia dos representantes da religião do templo (12-14). Os representantes da religião oficial fazem novo apelo para meter sua teologia goela abaixo (15-20). O mesmo se verifica em Jó 21-27.

Uma novidade acontece em 29-31 e 38,1-42-6. Jó fala diretamente a Deus e protesta contra ele. Recebe uma resposta de Deus (38,1ss). Esta resposta faz ver que Deus é diferente daquele pintado pela religião oficial. É o Deus da vida. Jó deve mudar sua cabeça. Deus não é culpado do sofrimento, este vem dos sistemas (Pérsia e religião judaica).

 

            3 - Conclusão

            O livro de Jó, às vezes coloca certa ousadia na boca de Jó. Esta arrogância é a pedagogia que o livro usa para enfrentar, não a Deus, mas a falsa imagem que se tem de Deus. Deus é bem outro. O livro enfrenta a religião oficial, baseada no puro e no impuro, na retribuição. O sofrimento não vem de Deus, mas dos sistemas político-econômicos e religiosos. Estes têm um falso Deus que deve ser enfrentado e desmascarado. Este é o grande desafio para hoje. A visão que se tem de Deus pode impedir o acesso a ele.

 

Jó, o homem paciente que se tornou impaciente

                                               (Conforme artigo para o Correio Riograndense - Set. 1996)

            Introdução

            Antes de estudar o livro de Jó convém dizer que este livro não é uma história de uma pessoa. Jó é um personagem que lembra o pequeno agricultor de Judá que, devido à uma política desastrada do imperador persa acaba perdendo tudo o que tem. Então, pode-se definir o livro de Jó como uma novela, lenda, ou mesmo parábola que tenta interpretar a vida do povo agricultor daquela época.

 

            1 - O momento histórico

            Nos anos 597-587 a.C. a Babilônia invade Judá e leva grande parte dos moradores de Jerusalém para o exílio, arrasa o templo e a cidade santa (2Rs 24-25). Aproximadamente 60 anos mais tarde a Babilônia se enfraquecera e surge o império dos persas que assume os domínios do antigo império da Babilônia. Assim também os judeus exilados caem nas mãos de novos senhores. Em 539 a.C. o rei da Pérsia permite que os exilados voltem para a sua pátria (Esd 1,1-11). Os repatriados podem reconstruir Jerusalém, seus muros e também o templo, mas não se tornam independentes. Todos os anos eles devem pagar pesados tributos aos senhores da Pérsia. Além dos impostos pagos aos persas, deviam também pagar 10% de seus produtos para a reconstrução de Jerusalém, do templo e da sustentação dos sacerdotes. Somando os tributos devidos aos persas e a Jerusalém, o agricultor se desfazia de aproximadamente 58% de suas colheitas. Muitas vezes o pequeno agricultor não conseguia pagar seus tributos, ficava então obrigado a pedir empréstimo aos mais ricos para saldar a dívida. Desta forma ele acabava hipotecando seus animais, suas casas e até seus filhos eram vendidos como escravos (Ne 5,1-5; Is 59,3-9 e Jó 24,1-12). O agricultor ficava sem nada e morria de fome e de doenças próprias a este estado de vida.

 

            2 - A ideologia que legitima

            Os sacerdotes que reconstruíram o templo eram também encarregados de cobrar os tributo para os persas, pois não havia outro governo em Judá. Para que o povo não se revoltasse os sacerdotes pensaram uma ideologia que fizesse a mentalidade da época. Criaram a teologia de retribuição e da paciência. Diziam que o que aqui se faz, aqui se paga. Quem faz o bem recebe bens de Deus e quem age mal é castigado por Deus. Desta forma metiam na cabeça do pequeno agricultor depauperado que suas desgraças eram causados pela sua infidelidade a Deus.

            Para melhor extorquir o povo, os sacerdotes do templo criaram a religião do puro e do impuro (Mc 7,1ss). Havia coisas e profissões impuras (Lv 11-14). Tornando-se impuro, era necessário se purificar através de um rito (Lv 4,27 e 7,38). Tal rito mais uma vez extorquia o pequeno agricultor que devia oferecer sacrifícios ao templo. O templo enriquecia às custas das impurezas do povo.

 

            3 - Jó, uma novela que reage

            Neste cenário nasce o livro de Jó. A primeira parte (Jó 1,1-2,13 e 42,12-17) nasceu entre os que querem manter a situação. Ali o pequeno agricultor (Jó) perde tudo o que tem (Jó 1 e 2) e não reclama de nada, pois tudo foi tirado por Deus. “Javé me deu tudo e Javé tudo me tirou. Bendito seja o nome de Javé”(Jó 1,21). Desta forma os mentores convencem o povo de que a desgraça é vontade de Deus e que, portanto, ninguém deve se revoltar. A novela termina dizendo que Jó foi recompensado e recebeu o dobro dos bens que possuía (Comparar Jó 1,1-3 com Jó 42,12-17). Esta novela se prestava bem para tirar a culpa do império persa e do templo de Jerusalém, empurrando tudo para Deus. Desta forma o pequeno agricultor não questionava a ordem política e social, pois tudo era vontade de Deus. Porém, a novela não parou nos capítulos acima citados. Outras mãos acrescentaram os capítulos 3,1-42,11. Esta parte do livro de Jó destoa completamente dos capítulos 1; 2 e 42,12-17. Agora Jó já não é o homem paciente e resignado, mas sim é o homem que protesta e até maldiz o dia em que nasceu (Jó 3). Jó é agora um revoltado que não aceita sua sorte, ou seja, o pequeno agricultor que já sabe que a situação em que vive não deve ser aceita, pois não é justa.

            Os três “amigos” (ou falsos amigos) que visitam Jó (Jó 2,11-13) são os representantes do templo que querem conscientizar o pequeno agricultor a não reclamar contra seu sofrimento, pois segundo eles, Jó é culpado pelos seus males. Deus está castigando. Jó não deve questionar a Deus. Assim se pode analisar os três discursos de cada amigo:

            Elifaz - Jó 4-5; 15; 22.

            Baldad - Jó 8; 18; 25-26.

            Sofar - 11; 20; 24,18-25; 27,13-23.

            Os três “amigos” de Jó querem, a todo custo convencê-lo de que Deus é justo. Se Jó está sofrendo, isto se deve à sua própria malícia. Note-se que os “amigos” usam o nome de Deus para enganar o pobre agricultor. Jó, no entanto, já evoluiu e não aceita mais a explicação fatalista dos representantes do templo. Agora convém analisar as respostas de Jó aos “amigos”: Jó 6-7; 9-10; 12-14; 16-17; 19; 21; 23,1-14,17; 27. Jó insiste em dizer que é inocente, não aceita a velha teologia dos “amigos”. Questiona até a Deus (Jó 13,3). Questiona Deus da forma como os falsos amigos o pintaram.

            A novela termina dizendo que Javé aprovou a forma como Jó, o impaciente, falava de Deus, mas reprovou os discursos dos “amigos” (Jó 42,7-11). Javé, o Deus verdadeiro, não fica indiferente diante do sofrimento do povo, pois ele é o Deus da vida (Ex 3,7-10; Ver também como Jesus entendia sua missão no evangelho de Jo 10,10).

 

            5 - Conclusão

            O livro de Jó é bem atual, pois também hoje existe, na mentalidade popular a idéia de que os sofrimentos que afligem o povo são vontade de Deus ou do demônio (Jó 1,6ss; 2,1ss). Desta forma as pessoas se acomodam, não lutam contra as injustiças e desviam seu olhar dos verdadeiros culpados. Muitas doenças que são causadas pelas péssimas condições de vida do povo acabam sendo atribuídas a Deus e como tais são aceitas passivamente. O velho ditado “O que aqui se faz aqui se paga” legitima tantos sofrimentos e dá a impressão de que os pobres são maus e culpados por tudo o que acontece, enquanto os bem sucedidos são bons e abençoados por Deus. Se assim fosse, os milionários que não conhecem nenhuma carência deveriam todos ser santos.

            Também hoje existem os falsos amigos de Jó que querem fazer a cabeça do povo falando erroneamente de Deus (Jó 42,7-11). Basta pensar em certos discursos sectários onde se quer expulsar o demônio em toda doença, conflito, desemprego, etc. Isto desvia a atenção dos verdadeiros culpados. Edir Macedo afirmou que o Brasil vai mal porque a maioria do povo é católico. Com isto se aceita pacificamente as injustiças sem perceber qual é a causa da miséria do Brasil. Para muitos políticos esta pregação é oportuna, pois podem agir na surdina e o desastre econômico, político e social decorrente de suas péssimas gestões terá um bode expiatório: Deus.

 

 

           

 

 

SÍNTESE

 

            Introdução

            Não sabemos quem é Jó. Ele é também apresentado em Ez 14,14 como homem justo. Não é judeu, mas é de Hus (Arábia). Portanto, é personagem universal. Deve ser um retrato falado  dos camponeses endividados do período pós-exílicos (Ne 5,1-15). O grito de Jó é o grito do povo injustiçado que só pode gritar a Deus.

 

            Estrutura

            A – Prólogo 1-2

            A’ – Epílogo 42,10-16         Obra original, completa. O homem que perde tudo e re-

                                                      cebe tudo em dobro

            B – Diálogo de Jó com os amigos 3-27: embate com a teologia oficial

            C – Elogio da Sabedoria 28: acréscimo posterior

            D – Discurso de Jó 29-31: rejeição à teologia oficial

            E – Discurso de Eliú 32-37: acréscimo posterior

            F – Diálogo de Jó com Deus 38-42,9: a nova teologia

 

            A obra

            Introdução: o narrador apresenta o personagem (Jó 1). Conta as suas desventuras até a vinda de seus três amigos (2,11-13). Depois o narrador desaparece para só voltar novamente em Jó 42,7ss.

            Cena : Jó e os três amigos sentados no lixo (Jó 3,2ss), vinda de um 4º amigo (32ss) e sua mulher inconformada (2,9; 19,17).

-         Os amigos (Sábios)  debatem o sofrimento dos justos. São a teologia oficial. Jó é a nova consciência em formação.

-         Para os  amigos o sofrimento é fruto do pecado

-         Para Jó isto é uma mentira.

 

1º Debate: a máscara de Deus

-         Jó: lamentação (3,1ss), maldição (3,3), amargura (3,20).

-         Elifaz: justifica a situação (4,1ss), o homem é responsável pela sorte (5,6ss), Deus corrige os que erram (5,17ss).

-         Jó: lamentação (6,1ss), não agüenta (6,11ss), protesta (6,15ss), prova sua inocência (6,24ss), grita contra Deus (7,17-21).

-         Baldad: justifica a situação (8,1ss), não conheces (8,9), Jó deve investigar seu passado (8,10ss), Deus não rejeita o homem bom (8,20).

Os três amigos mostram uma máscara de Deus

-         Jó: discute com Deus (9,2-14), como faze-lo (2,15ss)? Pede esclarecimentos a Deus (10,2-3), pede compaixão (10,18-22).

-         Sofar: repreende Jó (11,1ss), Deus vai revelar (11,5ss), reconheça (11,12), saia da injustiça e tudo correrá bem (11,13-20).

-         Jó: refuta (12,1ss), vocês zombam (12,4), querem ser donos de Deus (12,5ss).

-         Jó: se dirige diretamente a Deus (13,1ss). Os amigos são impostores (13,3s), defendem Deus com mentiras (13,7), também eles não são perfeitos (13,9-11), Jó se dirige a Deus (13,13ss), prova inocência (13,18). Espera por um momento de alivio (14,14).

 

2º Debate

-         Elifaz: sabedoria falsa (15,1ss).

-         Jó: refutação (16,1ss).

-         Baldad: sabedoria falsa (18,1ss).

-         Jó: refutação (19,1ss).

-         Sofar: sabedoria falsa (20,1ss).

-         Jó: refuta (21,1ss).

 

3º Debate

-         Elifaz: caricatura de Deus (22,1ss).

-         Jó: réplica (23,1ss).

-         Baldad: caricatura de Deus (25,1ss)

-         Jó: réplica de Jó (26,1ss)

 

Elogio da Sabedorida (290

 

- Apologia de Jó (29-31)

- Discursos de Eliú (32-37)

-         1º discurso de Javé (38,1ss)

-         2º discurso de Javé (40,6ss).

-         Resposta de Jó (42,1-6).

 

Narrador: faz a síntese, o fechamento (42,7-9): Deus está indignado porque os três amigos não falaram bem de dele (42,7). Eles falaram bem, mas mentiram sobre Deus, apresentaram uma máscara; enquanto Jó reclamava, falava bem de Deus (42,7).

-         Os três amigos: tradição – máscara

-         Jó: reclama – fala bem: o novo

-         Jó experimenta o Deus verdadeiro: nova teologia